Opinião

ESPAÇO DO CIDADÃO


TERRA SANTA

Nenhuma doença foi mais avassaladora. A febre amarela, iniciada na China, atingiu inicialmente a cidade do Rio de Janeiro. Em seguida chegou a Santos. Subiu a serra, chegou a São Paulo, através dos trens da Santos-Jundiaí. E aqui no planalto passou por Jundiaí, sem causar nenhuma morte, mas foi extremamente cruel aos municípios de Campinas, Limeira, Rio Claro, São Carlos, Araraquara. Onde houvesse uma estação de trem a febre amarela ali se instalava e provocava inúmeras mortes.

Para se ter uma ideia de sua letalidade, mais de 25 por cento dos moradores de Campinas- cerca de 12 mil habitantes - morreram em pouco tempo. Dos 27 médicos da cidade, apenas 3 ficaram com seus consultórios. Os demais fugiram para seus sítios, chácaras ou para as cidades longínquas, longe, portanto, dos surtos virulentos. Mais avassaladora foi quando atingiu a cidade de Araraquara, onde morreram quase 40 porcento de seus moradores.

O jornal O Estado de São Paulo destacou em diversas reportagens que Campinas era o maior produtor agrícola do Brasil. Tinha a liderança na produção de café, açúcar, milho e de gado. Sem a produção de Campinas, São Paulo entraria em colapso: Não só em termos de produção. Também estaria comprometida a arrecadação do Estado. Com a ajuda da Assembleia Legislativa foi montado um esquema de transferências de recursos. Os fazendeiros foram chamados a colaborar.

O auge da crise vai de 1887 até 1905. Di 6 de maio de 1888, faleceu em Campinas o Visconde de Parnaíba, filho do Barão de Jundiaí, que veio do Rio de Janeiro já com febre alta. Ele queria morrer em Jundiaí, mas naquele tempo o centro médico mais qualificado do interior do Estado estava localizado naquela cidade. Em Jundiaí não havia médicos, apenas o dr. Olavo Guimarães, mas esse nunca exerceu a medicina. Preferiu tocar as fazendas da família.

A febre atingiu todas as cidades que tinham linhas férreas. O vírus se instalou nos trens. Quem descobriu isso foi o cientista, Oswaldo Cruz, nascido em Santana do Parnaíba, e que trabalhou em Paris com o famoso Dr. Pasteur. Tratou logo de fazer a separação dos habitantes. Proibiu reuniões coletivas. E passou a aplicar vacinas à população. Ele já tinha a experiência do Rio de Janeiro, quando conseguiu autorização para combater a doença, e enfrentou a revolta das vacinas. Políticos lideraram o movimento contra a sua aplicação.

E por qual motivo Jundiaí não foi contaminada? Como aqui não havia médicos residentes ou clinicando na cidade, imaginou-se inicialmente que os causadores da febre seriam os médicos. Mas Oswaldo Cruz tratou de desmistificar essa falsidade. Disse que provavelmente seria o clima. A população afirmava que era a água da Serra do Japi que abastecia a cidade. Os padres afirmavam pelo interior que Jundiaí era uma cidade santa. Por isso ficou de fora da febre amarela, uma das mais cruéis doenças que atingiu o Brasil. Mas a Covid-19 deixou de lado esse lado místico da cidade. O vírus veio com toda sua letalidade. Será que encontrou alguma barreira? O futuro dirá. Por enquanto, preservemo-nos a favor da vida e do amor que devemos ter uns com os outros.

Geraldo Gattolini


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