Opinião

Toda poesia de Leminski

Letrista pop, compôs com Moraes Moreira, Arnaldo Antunes e Itamar Assunção


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

Antologia de Paulo Leminski, "Toda poesia" reúne os versos desse paranaense, protagonista da cultura brasileira no século passado. Poeta, romancista, tradutor, compositor de música pop, ensaísta, Paulo Leminski foi artista multitalentoso. O livro, editado pela Companhia das Letras e organizado por sua companheira, a também poeta Alice Ruiz, abarca desde "Quarenta clics em Curitiba", de 1976, passando por "Caprichos e relaxos", de 1983, e "Distraídos venceremos", de 1987, até "La vie en close" e "O ex-estranho", editados postumamente na década de 1990. Traz também poemas dispersos e inéditos. Nascido em Curitiba, em 1944, sua ascendência retrata um dos mais positivos aspectos de nossa formação brasileira, qual seja, a miscigenação étnica. Leminski é filho de ancestrais europeus (poloneses), africanos e ameríndios. Autor irrequieto e desde sempre pesquisador de formas, Leminski foi influenciado pela poesia visual dos concretistas e também pela concisão dos haicais do japonês MatsuoBashô (de quem escreveu biografia). Bebeu de vanguardistas como os franceses Stéphane Mallarmé e Paul Verlaine, e o brasileiro Oswald de Andrade. Voltando aos haicais (pronuncia-se "ráicái"), trata-se de um tipo de poema nascido no Japão, de poucas palavras e versos curtos. O curitibano foi mestre no formato: "ano novo/anos buscando/um ânimo novo"; ou "acabou a farra/formigas mascam/restos de cigarra".Foi professor em cursinho pré-vestibular, escreveu peças publicitárias e fez traduções. Traduziu escritores de língua inglesa (Samuel Beckett), francesa (Alfred Jarry), japonesa (YukioMishima) e latina (Petrônio). "Um atrapalho no trabalho", prosa poética do ex-beatle John Lennon, ganhou versão em português de Leminski. Parte de sua formação veio dos monges beneditos, de quem foi aluno. A outra porção credite-se ao seu autodidatismo.

Em alguns poemas, brincou com ditos populares: "sorte no jogo/azar no amor/de que me serve/sorte no amor/se o amor é jogo/e o jogo não é meu forte,/meu amor". Ou ainda: "Amor, então,/também acaba?/Não que eu saiba./O que eu sei/é que se transforma/numa matéria-prima/que a vida se encarrega/de transformar em raiva./Ou em rima". Letrista pop, compôs com Moraes Moreira, Arnaldo Antunes, Itamar Assunção e foi gravado por Caetano Veloso e Ney Matogrosso, para citarmos alguns expoentes.

Paulo Leminski morreu em 1989, aos 44 anos.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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