Opinião

Quero de novo cantar

Nós, os cidadãos, somos os legítimos senhores do Congresso e dos Tribunais


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COLUNISTAS GUARACI ALVARENGA
Crédito: divulgação

Nestes tempos tristes, enquanto se treme a existência do vírus fantasma, sem sinais que possa retroceder, recordei-me de uma viagem, feita há anos atrás, um presente na minha vida, saboreado e repetido em minha memória, toda vez que eu queira. O convite partiu do saudoso Marinho Sacchi, na época assessor da FPF, para um Congresso de Desportistas em Washington D.C. Foram muitos conhecidos, mas agrupamos nos amigos mais chegados. Luis Roberto Pitico, Claudio Gomes, Kalaf JR. Foi a primeira vez que pisei em solo americano. Deixando de lado meu ufanismo nativo, pude observar o quanto uma nação preserva os valores ao invocar o nome: Liberdade. A quantidade de museus algo extraordinário.

The Mall, a alcunha de uma imensa área de gramado com 4 quilômetros de extensão, com um belíssimo espelho de água. Visível de qualquer ponto de vista, o panteão neoclássico de Thomas Jefferson, principal autor da Declaração de Independência dos EUA. Um pouco adiante o memorial Martin Luther King, busto esculpido em pedra do maior ativista político negro. Esculpida em mármore, com 9 metros de altura, aboletado em um trono, o presidente que liderou uma guerra civil, acabando com a escravidão Abraham Lincoln. "Nós, os cidadãos, somos os legítimos senhores do Congresso e dos Tribunais, não para derrubar a Constituição, mas para derrubar os homens que pervertem a Constituição."

Cemitério e praças públicas dignificam aos que morreram defendendo a Pátria. História e muita cultura democrática. Retorno a um agradável momento da viagem. À noite, saíamos para conhecer a sua vida noturna. Numa delas fomos jantar num aprazível restaurante. Logo na entrada deparava-se com dois grandes pôsteres. Um de Frank Sinatra, a voz, e outro de Antonio Carlos Brasileiro Jobim, o magistral Tom Jobim, um dos nossos maiores compositores. Da mesa reservada tinha uma linda vista das docas do rio. Num dos cantos uma pianista negra, de inexprimível beleza que resulta da alegria e do entusiasmo de cantar. Entendi as fotos expostas, cantava, alternadamente, músicas de Sinatra e Tom.

Na nossa vez que se ouvia uma canção brasileira, se procurava cantarolar alguns versos, já saudosos de nosso país e de nossos familiares. Foi num destes lances, que um gesto da excelente cantora despertou minha atenção. Olhei para os lados e voltei o olhar para entender o sinal. Confirmou com um leve sorriso. Eu, um estrangeiro? Aproximei-me do piano. Mostrou-me uma canção. Conhece a letra? Respondi no meu pobre inglês: more or less! Ajude-me a cantar. Dedilhou o piano, nos primeiros acordes, soltou aquela maravilhosa voz. Percorri todo o ambiente com olhos emocionados. Desabrochava uma harmonia em todos dentro do restaurante, num coro ensaiado de alegria. Uma cena tão bela como nunca então. Vítimas que somos das restrições impostas nos dias atuais, das experiências do prazer e de novas ilusões, ainda pulsam em meu peito as letras da canção, infinita e efêmero como o tempo:

Tristeza, por favor, vai embora/ minha alma que chora/ está vendo o meu fim/ fez do meu coração a sua moradia/ já é demais o meu penar/quero voltar aquela vida de alegria/ quero de novo/ quero de novo Cantar!

GUARACI ALVARENGA é advogado


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