Opinião

Não espere o Carnaval passar

A quem caberia bater o martelo final na campanha em torno do coronavírus?


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Margareth Arilha
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Desta vez, nem mesmo esse poderá ser o argumento: "o país só começa, mesmo, depois do Carnaval". Não haverá, em tese, Carnaval. Sim, porque no país do Carnaval, tudo pode ser fantasia. As recomendações são essas, mas parece que não há mais nenhum tipo de investimento naquilo que pode ser, efetivamente, levado a sério, aquilo que exige responsabilidade. Aquilo que exige um compromisso com o outro. Nessa época do ano, era muito comum que o Ministério da Saúde estivesse preparando as suas campanhas publicitárias. No geral, havia muita preocupação com as doenças sexualmente transmissíveis. Não era raro que no meio dos bailes, nos salões, inclusive aqui na cidade, equipes fantasiadas saíssem em blocos específicos relembrando a necessidade do uso do preservativo como dupla proteção: contraceptiva e como método de prevenção de enfermidades.

As grandes campanhas de prevenção sempre foram uma forma de manter acesa a luz alerta para grandes contingentes populacionais, quando se tratava de saúde. Faz tempo, faz muito tempo que não vemos campanhas publicitárias desse tipo e porte. Fico me perguntando como é possível pensar que numa época tão difícil como a nossa, não estejam sendo investidas somas para este tipo de educação popular. Ao mesmo tempo, é bem verdade que a questão que fica é a de que ninguém conseguiria chegar a algum acordo sobre qual mensagem emitir. A quem caberia bater o martelo final no foco e no slogan da campanha em torno do coronavírus? Afinal onde é mesmo que estamos situados? Qual é a relevância do cuidado com a vida e com a dor humana, como mote de preocupação e ação do gestor máximo do país e de seu gabinete?

Escutei estupefata, recentemente, o seguinte argumento: "bem, ninguém pode ser bom em tudo o que faz, e se o país em várias outras coisas (quais?) está OK, até se poderia desculpar cometer alguns erros na saúde". Alguns erros? Custa a acreditar, por exemplo, que não se consiga considerar as dificuldades de uma família que se confronte, por exemplo, com a saída de um familiar, de um estado para outro. Seria possível, por exemplo pensar que atrás de cada doente transferido haveria quatro pessoas em média sofrendo. Portanto, no mínimo seis mil pessoas, certamente choram pela dificuldade de ter informações, ou de ter acesso a alguma pessoa de suas íntimas relações. Alguém considerou a possibilidade de oferecer atendimento psíquico especial para essas pessoas que sofrem pelos desmando de um Estado pouco sensível e completamente incapaz de dar respostas firmes, e razoáveis para um atendimento pessoal e familiar humanizado ?

Na verdade, nem antes, nem durante e nem depois do Carnaval vamos resgatar um país que possa efetiva e rapidamente pensar no sofrimento humano que se acumula, e que vem criando verdadeiros limbos de descompassos e angústias. Registre-se a insistência com que a epidemia e a política nacional vem ferindo as subjetividades, exigindo atos dos sujeitos, mulheres e homens, para os quais nem sempre há capacidade psíquica instalada. De fato, havia uma certa previsibilidade das consequências que assistiríamos como resposta aos rumos da epidemia. Mas, o que vem se apresentando, especialmente pela continuidade e pouca alteração e registro de saídas possíveis do mal-estar, pode se agravar nos próximos meses.

Nesse caso, não assistiremos no Brasil apenas a uma megaepidemia do coronavírus, mas também a uma megabatalha para trazer a luz as melhores e mais fortes pulsões de vida psíquica à luz cotidiana. E para isso, não espere o Carnaval chegar ou passar.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp


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