Opinião

Cine Teatro Vila Arens

Vocês ririam se esta cena acontecesse com vocês?


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Wagner Nacarato
Crédito: divulgação

"Tudo teve início, no dia em que vi, que da minha janela, eu só podia ver um pedaço do céu." E, então, pus os pés para fora de casa. Minha infância e juventude foram vividas, praticamente, no bairro da Vila Arens, em Jundiaí.

As ruas em torno de minha casa foram o palco de muita experiência e amizade. Era na praça, ao lado da igreja "Nossa Senhora Conceição", que aconteciam os encontros dos meninos, com suas poderosas máquinas triciclos.

Mas foi o antigo Cine Teatro Vila Arens, em frente ao Colégio Divino Salvador, o local que mais marcou minha vida. Vivendo ao estilo do roteiro de "Cinema Paradiso", vivia pendurado em suas portas, em busca dos cartazes que anunciavam as próximas atrações. E, quando um novo cartaz era fixado, era a hora de pedir dinheiro ao bisavô para a compra do ingresso e da pipoca. Sim, na frente do Cine Teatro, o pipoqueiro trazia sua contribuição à sessão. Foi ali que conheci Chaplin, filmes de faroeste de quinta categoria, até a sessão inesquecível de "Godspell, a esperança".

E o teatro foi se aproximando mais e mais de mim. Creio ser ali, naqueles tempos, um dos únicos locais na cidade para as apresentações teatrais. "Castro Alves pede passagem" foi uma aula inesquecível. Num determinado momento, numa cena bem tensa e triste, a plateia riu. E, sem mais nem menos, o ator despiu-se da personagem, dirigiu-se até o proscênio e disse a todos: vocês ririam se esta cena acontecesse com vocês? E a resposta foi um silêncio mais perturbador que havia vivido. Ali o teatro me conquistou. Queria fazer teatro para poder "mexer" daquele jeito com as pessoas. Sim, o teatro tinha uma força incrível para mudar o mundo.

No antigo Cine Teatro, ainda um pré-adolescente, tive a honra de assistir a um monólogo com, nada mais nada menos, Procópio Ferreira. Havia pouquíssimas pessoas na plateia e não entendi o porquê, já que ele era um ator consagrado, segundo uma professora de História. Após a apresentação, fomos até o camarim improvisado, e pudemos gravar uma entrevista com ele.

Com o passar da idade, aventurei-me para fora do bairro. Agora, já podia frequentar os cines do centro da cidade. E aí, a vida mudou. Do centro da cidade fui para São Paulo, atrás dos teatros e cinemas e museus que me interessavam. E para constar, naquele tempo, não havia Waze, nem internet. Procurávamos as atrações artísticas e culturais nas páginas de Cultura dos jornais da Capital e chegávamos aos locais de apresentações, por pura sorte.

Hoje, o Cine Teatro transformou-se em espaço para festas temáticas. A famosa festa portuguesa acontece ali, levando muitas famílias do bairro, para desfrutarem dos comes e bebes."A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte", diz a letra da canção. Que bom que no início de minha vida tive o privilégio de ter, ao lado de casa, um Cine Teatro, como foi o da Vila Arens.

WAGNER NACARATO é coordenador de cultura, professor e diretor de teatro


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