Opinião

Mayombe

Kikongos, kimbundus, umbundus, cabindas são alguns desses povos


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

Romance do escritor angolano Pepetela, "Mayombe" trata da luta pela independência de Angola do domínio português. Publicado em 1980, o livro passa-se na floresta tropical do Mayombe, na África. Guerrilheiros do Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA) enfrentam tropas do colonizador português (os "tugas") a fim de conquistar a independência. O contexto mais amplo é o da Guerra Fria, do mundo polarizado entre os Estados Unidos e a então União Soviética, duas potências arbitrando o destino das nações. As guerras pela independência de tantos países giraram em torno da influência de estadunidenses e soviéticos. Em Angola não foi diferente.

O livro alterna pontos de vista para contar o dia a dia da guerrilha. Além da voz de um narrador na maior parte do enredo, há trechos narrados pelos principais personagens: Mundo Novo, Comissário, André, Lutamos, Ondina, Milagre, Teoria contam trechos da história, e todos falam de Sem Medo, o comandante da tropa. Líder carismático e muito inteligente, Sem Medo procura unir seus soldados contra outro inimigo ameaçador, o tribalismo, ou seja, o preconceito e a desconfiança entre as diversas etnias.

Kikongos, kimbundus, umbundus, cabindas são alguns desses povos que, sob o jugo do invasor europeu, foram forçados à convivência na colônia ultramarina. O desconhecimento gera suspeita e enfraquece o grupo.

Descrente do triunfalismo, das soluções mágicas e instantâneas, pragas que infestam a conversa dos "revolucionários", Sem Medo é um combatente desconfiado. Próximo do fim do livro, sua conversa com um dirigente do partido é aula magna sobre o exercício do poder. Trata das concessões, das negociações, da condução política a partir da tomada do poder, quando a realidade certamente vai se apresentar muito diferente daquela imaginada nos alfarrábios dos "iluminados".

Artur Carlos Pestana dos Santos, conhecido por Pepetela ("pestana", em umbundu), é um escritor e sociólogo nascido em Benguela, Angola, em 1941. Estudou na Argélia, em Portugal e na França, antes de retornar a sua terra natal e tomar parte na luta contra o colonizador. Ocupou cargos no governo do país recém-independente, mas afastou-se para dedicar-se à literatura e à docência (foi professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda). Recebeu em 1997 o Prêmio Camões, um reconhecimento da importância de sua obra para a literatura de língua portuguesa.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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