Opinião

Um grama, por favor

O que "vem de encontro" se choca, agride, ofende o que se pretendia ver convergente


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Na última quinta-feira, 4 de fevereiro, este espaço mereceu um artigo cujo original era "Um grama de exemplo". Não sei de quem foi a ideia, com certeza generosa, de corrigir para "Uma grama". E assim se publicou.

Na exuberante polissemia do idioma pátrio, um dos significados de grama é o de unidade de medida de massa no sistema cgs, ou seja, aquele sistema de unidades que utiliza três elementos básicos: centímetro, grama e segundo. Foi com sentido tal que o verbete serviu para intitular o texto. Não era a versão que designa diversas ervas da família das gramíneas. Muito menos como elemento de composição pospositivo, para formar palavras como epigrama, organograma, psicograma e outras.

Grama, conforme se empregou, é um substantivo masculino, embora o vulgo o tenha feminilizado. É comum ouvir nas padarias: - "Quero duzentas gramas de queijo!". Errado! Mas ninguém pode afirmar que português é uma língua fácil.

Muitos outros equívocos são continuamente perpetrados. No meu campo do direito, usucapião é palavra feminina, embora seja recorrente chamar essa modalidade de prescrição aquisitiva de instituto masculino.

Há quem legitime o uso liberalizado do vernáculo, pois uma seria a forma erudita, outra a maneira com que o povo se exprime. Nada contra. Só que o autor, por generosidade de seus pares, é o presidente - pela quarta vez - da Academia Paulista de Letras. Uma instituição cuja finalidade é proteger a língua portuguesa. Quem lê "uma grama de exemplo" tem todo o direito de pensar que ele não conhece a "última flor do Lácio", cada vez mais inculta e menos bela.

Por isso recorre-se à paciência do leitor, para esclarecer que "um grama" é escorreita e que "uma grama" só pode se referir àquela forração espontânea que integra parques e jardins.

Por sinal que encontro em excelentes livros, outro uso errôneo e bem disseminado: algo "vem de encontro" aos nossos anseios. Isso é colisão! O que "vem de encontro" se choca, agride, ofende aquilo que se pretendia ver convergente. O certo é "ao encontro". Uma pena que a mídia tenha deixado de publicar colunas como o "nossa língua", do professor Pasquale Cipro Neto, para nos auxiliar em nossas dúvidas.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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