Opinião

O bilhete

Criamos nossos filhos para que criem asas para poderem voar


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COLUNISTAS GUARACI ALVARENGA
Crédito: divulgação

Valho-me hoje de um conto, enviado pelo amigo Antonio Carlos Toledo, carinhosamente chamado de Esquerda, pela excelência do futebol que sempre praticou. Proprietário da famosa pizzaria Margueritha, incrustada no coração dos Jardins na Capital, muito me sensibilizou, por espelhar uma parte de minha vida de estudante. Quem de nós, na juventude, dentro de um vagão de trem, não teve seus belos sonhos e seus fantasmas de insegurança, diante da vida? Gostaria eu tido escrito, mas o transcrevo em homenagem ao autor desconhecido, com minhas melhores reservas de estima e consideração:

Todos os anos os papais do Martin o levavam para a casa da avó, para passar as férias de verão. Eles voltavam, para casa, no mesmo trem.

Um dia, a criança disse aos pais: "Já estou crescido. Posso ir sozinho para casa da de minha vovó." Depois de um breve entendimento, os pais resolveram aceitar.

Quando na estação, aguardando a saída do trem, despedem-se do querido filho, dando-lhe os conselhos pela janela, em quanto o filho lhes repete: "eu já sei, já me disseram isso mais de mil vezes".

Quando o trem está prestes a sair, o pai murmura aos ouvidos dele: "Filho, se você se sentir mal ou inseguro, isto é para você!" Ele coloca algo no bolso de Martin.

Agora está sozinho, sentado no assento do trem como queria. Sem seus pais, pela primeira vez. Admira a paisagem que se deslumbra aos seus olhos. Ao seu redor, no entanto, alguns desconhecidos se empurram, fazem barulho, entram e saem do vagão. O supervisor, apreensivo, comenta com alguns passageiros o fato do garoto estar sozinho. Uma senhora olha para o menino, com os olhos de tristeza.

A euforia de antes faz Martin ficar apreensivo. Cada minuto que passa se sente mal, e passa ter medo da viagem. Abaixa a cabeça e pressente estar sozinho e encurralado. Lágrimas escapam de seus olhos.

Neste instante lembra-se de que o pai colocou algo em seu bolso... Com as mãos trêmulas o procura em seu bolso.

Ao encontrar o pedaço de papel, o leu: "Filho, eu estou no último vagão!"

A vida em si.

Criamos nossos filhos para que criem asas para poderem voar. Nós os criamos para o mundo. Devemos deixá-los ir embora. Confiamos na vontade e desejos próprios da juventude. Só assim serão melhores do que pudemos ser. Mas se encontrar, como poetizou Drumond de Andrade, uma pedra no caminho e não conseguir removê-la pode acreditar que, ainda em vida, busque o bilhete em seu bolso.

Eu tenho o meu guardado no coração.

GUARACI ALVARENGA é advogado


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