Opinião

Marchinha de uma Quarta-Feira de Cinzas


ALEXANDRE MARTINS
MARGARETH ARILHA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

E começo hoje cantando com Vinicius de Moraes e Carlos Lyra. Eles escreveram e cantaram com os versos dessa composição: “Acabou nosso Carnaval. Ninguém ouve cantar canções. Ninguém passa mais brincando feliz E nos corações. Saudades e cinzas foi o que restou. Pelas ruas o que se vê. É uma gente que nem se vê. Que nem se sorri. Se beija e se abraça. E sai caminhando. Dançando e cantando cantigas de amor. E, no entanto, é preciso cantar; Mais que nunca é preciso cantar. É preciso cantar e alegrar a cidade. A tristeza que a gente tem. Qualquer dia vai se acabar. Todos vão sorrir. Voltou a esperança. É o povo que dança. Contente da vida, feliz a cantar. Porque são tantas coisas azuis. E há tão grandes promessas de luz. Tanto amor para amar de que a gente nem sabe". E por aí vai...

Uma obra espetacular, e que pode falar de como eram os nossos momentos pós-carnavalescos, numa Quarta-Feira de Cinzas. Mas, que nesse caso, 2021, nos fala de como vivemos esses últimos dias de Carnaval pandêmico. Considero que esse sim, deve ser um fenômeno a ser analisado, olhado com vigor e boa embocadura . Com meus anos de vida , com os instrumentos teóricos e práticos de que disponho, realmente me chama atenção a maneira como a grande maioria das pessoas se comportou neste Carnaval. Ver totalmente vazias as grandes avenidas de grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Olinda (com Carnaval tão particular) Fortaleza, Florianópolis, dentre outras e observar um volume imenso de iniciativas basicamente musicais através de uma enorme profusão de lives, mostrou o grau de saúde mental que ainda existe no país, Foi mantida a voz do carnaval Foi mantido o desejo de relembrar. Foram mantidas as brincadeiras e, sobretudo, as piadinhas saudáveis em formato de posts. O que seriam os posts atuais que não as antigas piadas verbais trocadilhos infames, paradoxos em forma de gozação, tão disseminadas em todo o mundo, que chegaram a ser estudadas por Freud em seu tempo.

O Brasil aceitou viver a impossibilidade de ter aquilo de que mais gosta. A grande totalidade da população se curvou empaticamente ao problema sanitário que vivemos, e aderiu quase que plenamente ao esforço, a necessidade de ver limitados os seus desejos de pura alegria e festança. Esse não é um fato menor na história política econômica cultural da cidade. Olhando do ponto de vista da psicanálise trata-se de um registro a fazer. Ruas vazias, pulsões sublimadas, esforços desenvolvidos em outras direções. Que cartão de visitas maravilhoso o Brasil desenhou para o mundo. Mas daí alguém vai perguntar: mas e as aglomerações? Sim, as aglomerações existiram e são lastimáveis. Vêm de todas as partes, e são movidas por entre a elite e as classes médias e populares, que se diga bem dito. Sobretudo estão a serviço daqueles que não conseguem deixar de se assujeitar a um imperativo de gozo que obriga a buscar um prazer desconectado de todas as outras informações que recebem através de seu aparelho sensitivo, cognitivo e psíquico. Mas, ocorre que as aglomerações não nos ganharam e importam muito menos do que o significado maior daqueles que não aderiram ao Carnaval como teriam gostado de fazer.


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