Opinião

O meio e não o fim

A forma como agimos ao longo da existência deixa marcas em nossa postura


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Wagner Nacarato
Crédito: divulgação

Isadora Duncan, a bailarina norte-americana, teve, num determinado momento de sua vida, uma parada de todos os movimentos de seu corpo. E os médicos não encontravam o diagnóstico. Imaginem uma mulher livre como ela perder a liberdade dos movimentos corporais. Depois de alguns tratamentos, eles voltaram e Isadora pode retornar à dança.

Hoje, estou eu aqui, meio que imobilizado, com dores, possivelmente, no nervo ciático. E foi nestes dias que me lembrei que, aos vinte e pouco anos, resolvi montar um grupo de teatro, em Jundiaí. Chamei alguns nomes que tinha como referência na cidade e deles vieram outros. Entramos num processo intuitivo de montagem, já que as técnicas teatrais entrariam mais adiante. O ponto de ruptura com a intuição foi quando, por meio de um simples exercício de relaxamento, um dos atores regrediu para o útero de sua mãe. Um susto a todos. Não era a intenção do exercício. Mas foi por meio daquela experiência que pude perceber o quanto o nosso corpo guarda memórias.

Foi por aqueles anos, que mergulhei na obra do psiquiatra brasileiro José Ângelo Gaiarsa, que apresentava um programa na TV Bandeirantes, onde abordava problemas emocionais. Foi pura identificação de minha parte. Ele trazia questões polêmicas para a época, muito influenciado pelas ideias do psicanalista ucraniano, Wilhelm Reich. Em sua obra "Couraça Muscular do Caráter", Gaiarsa "afirmava que a forma como agimos ao longo da existência deixa marcas em nossa postura, marcas essas cujo significado psicológico costuma ser negativo". Trouxe duas vezes Gaiarsa para Jundiaí, a fim de apresentar suas ideias para um público, predominantemente, feminino. Naqueles tempos não existiam as tais leis de incentivo cultural e foi essa a maneira que achamos para conseguir algum dinheiro para as montagens teatrais que sonhávamos realizar.

Quando fui para o CPT - Centro de Pesquisa Teatral - sob a regência de Antunes Filho, os exercícios corporais visavam o desarmamento corporal, pois segundo ele, a criatividade fluía por meio de um corpo livre, sem resistência muscular. Mesmo mergulhados nesta tarefa, meus joelhos não receberam o devido cuidado técnico para poder realizar um cachorro louco que atravessava o palco. Claro, que após algumas apresentações, os ligamentos surtaram.

Meu próximo passo, em busca de um corpo livre e presente, foi ter, ao meu lado, numa nova montagem, o psicólogo Paulo de Tarso Tonon e seu Treino Psicofísico. Tonon acompanhava os ensaios e, ao seu término, apresentava ao elenco alguns exercícios, muitos deles vindos de Alexander e Leslie Lowen. Retornávamos para casa com nossos corpos mais livres das ações que recebíamos em cena, via personagens.

A grande revolução veio com Klauss Vianna e sua técnica de preparação corporal para o ator. Após a morte de Klauss, procurei em seu filho, Rainer, o aprofundamento da técnica. Em meus próximos trabalhos, contei, sempre, com a presença de preparadores corporais, como Luzia Carion, integrantes da equipe de Rainer.

Antunes Filho disse que "o exercício corporal não é o fim, mas o meio para chegar a algum lugar. E se as pessoas não sabem onde elas querem chegar, você tem que ajudá-las a encontrar um rumo. Não podemos fazer teatro simplesmente para ter brilho e ganhar aplauso. Temos que fazer teatro para distribuir algo às pessoas". Encontrar seu corpo e suas possibilidades não é o fim, é o meio.

WAGNER NACARATO é coordenador de cultura, professor e diretor de teatro


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