Opinião

Que é do teatro amador?


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

O Museu Lasar Segall conseguiu preservar e tornar disponível on-line toda a produção gráfica do TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia. Foi um grupo que movimentou São Paulo entre 1948 e 1964. De igual maneira, foram digitalizados e podem ser acessados com apenas um clique, os antigos programas da EAD – Escola de Arte Dramática, fundada por Alfredo Mesquita e depois incorporada pela ECA – Escola de Comunicações e Artes da USP.

Para aumentar ainda mais o acervo, está digitalizada a produção do Grupo de Teatro Experimental, do Grupo Universitário de Teatro e da Sociedade dos Artistas Amadores de São Paulo. Além de tudo, a biblioteca digital das artes do espetáculo é acessível a todos os que se interessarem, com catálogo on-line no link http://bjks.opac.mls.gov.br

O Museu ainda tem a guarda de toda a coleção das revistas "A Scena Muda" (1921-1956) e "Cinearte" (1926-1942). São documentos relevantes sobre os primórdios da produção e da exibição de filmes, da crítica e da indústria cinematográfica no Brasil. Todo o conteúdo é passível de ser digitalmente acessado.

Integra esse patrimônio cultural, uma enorme série de folhetos dramáticos. Peças teatrais antigas, publicadas entre a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX. São peças publicadas em brochura, editadas por editoras e livrarias que já não existem, material estupendo para a pesquisa dos interessados.

Lembrei-me da importância do teatro amador na Jundiaí da primeira metade do século passado. Meu pai, Baptista Nalini, era ensaiador do teatro da Cruzada da Mocidade Católica, grupo de jovens que se reunia sob os auspícios dos beneditinos. O Mosteiro de Sant'Ana, que em nossa cidade todos conhecem por "São Bento", contava com alguns monges muito queridos: dom Abade Pedro Roeser e dom Amaro Boedenmuller. O primeiro era taumaturgo. Uma estátua em dimensão natural o eterniza bem defronte à antiga "Casa da Criança", na Praça das Rosas, que ainda tem o Hospital São Vicente e a antiga Fratelanza, depois chamada "Casa de Saúde Dr. Domingos Anastasio".

As igrejas contavam com os seus próprios grupos teatrais. Não havia televisão e o teatro, assim como ocorria desde a Idade Média, era o veículo de consolidação do aprendizado, além de manter a fidelidade dos chamados à vida religiosa, embora laica.

Mas não foi apenas o Teatro da CMC que contou com a participação ativa de meu pai. Ele também atuou no "Grupo Dramático Guarany", mantido pelas Indústrias Andrade Latorre, na qual trabalhou. O industrial Luis Latorre foi um empresário zeloso em relação aos seus colaboradores. Era um patrão generoso e consciente. Várias famílias criaram sua prole sob a proteção da fábrica de fósforos.

O teatro é uma atividade que envolve colaboração e reclama trabalho em equipe. Dezenas de partícipes eram chamados a exercer múltiplas tarefas. Desde o cuidado com a portaria e com os bilhetes, a confecção dos cenários, os contra-regras, os ajudantes, o "ponto". As crianças de hoje nem sabem o que é o "ponto".

Era uma pessoa que ficava numa cavidade no palco, longe das vistas da plateia, com o inteiro teor da peça, acompanhando-a passo a passo. Se um dos atores se esquecesse de sua fala, o "ponto" lembrava, em voz baixa. Quase sussurrando.

A paixão de meu pai pelo teatro amador era tamanha, que ele acumulava as funções de autor – escrevia peças – ator, diretor, ensaiador, declamador, organizador. E ainda havia tempo de interpretar um personagem caipira, chamado "Chico Pindoba".

Aliás, foi por causa do teatro amador que meu pai conheceu minha mãe. Benedicta Barbosa pertencia à equipe da Matriz de Nossa Senhora do Desterro, incondicional seguidora de Monsenhor Doutor Arthur Ricci. Ao interpretar a peça "A Rainha das Borboletas", chamou a atenção de meu pai. Àquela época, em 1944, ele sequer conversou com ela. Foi diretamente à casa de meu avô e pediu sua mão em casamento.

Teatral, não é? Mas é a verdade.

Tudo isso vem à memória de quem cresceu a ouvir ensaios, a vibrar com o pai quando fazia o papel de heróis, de advogados, de homens poderosos. Mas o seu papel principal foi ser nosso pai. Extremoso, reto, humilde e profundamente bom.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022


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