Opinião

Augusto de Campos faz 90

O paulistano Augusto de Campos mantém-se na ativa


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

O maior poeta brasileiro vivo completa 90 anos. Poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta, o paulistano Augusto de Campos mantém-se na ativa, publicando e expondo seus trabalhos (muitas de suas criações mantêm um apelo imagético e oscilam entre a literatura e as artes visuais). Com seu irmão Haroldo de Campos, mais o jundiaiense radicado em Osasco, Décio Pignatari, formou a poderosa trindade da Poesia Concreta, movimento que sacudiu a cultura brasileira na década de 1950, cuja influência espalha-se ainda hoje, em artistas como Paulo Leminski e Arnaldo Antunes. Caetano Veloso homenageia os concretistas na letra de um de seus maiores sucessos, a canção "Sampa", no verso "eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços", referindo-se aos irmãos Campos e ao aspecto visual de sua arte. O Concretismo propôs a abolição do eu lírico e da retórica sentimental, o fim do verso tradicional e a incorporação na criação de seus poemas de formas e procedimentos das artes gráficas e plásticas.

A poesia concreta nasce em São Paulo e parte de sua história tem a ver com a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Haroldo e Décio eram colegas de turma. Augusto, dois anos mais novo, também se formou na mesma faculdade. Aos sábados, Décio ia de Osasco para a casa dos irmãos Campos, em São Paulo. Conversavam muito sobre literatura, música e artes plásticas. Leitores em três ou quatro línguas vivas, mais uma ou duas línguas mortas, a poesia ocupou lugar privilegiado nas discussões dessas artistas. A da antiguidade e a contemporânea. Lançaram uma revista, "Noigrandes", e expuseram seus trabalhos na mostra "Arte Concreta", de 1956. Estava armada a discussão.

Tomaram paulada de todos os lados. Parte da crítica rotulou-os "alienados", "deslumbrados com a industrialização capitalista"; para passadistas de outro naipe, eram farsantes dispostos a destruir a "boa poesia". Houve os que viam empulhação na ideia repetida pelos três poetas de que vanguardistas do passado apontavam o caminho para a grande renovação propiciada pelo Concretismo. Como se o melhor de ontem convergisse sempre para a contemporaneidade da poesia concreta.

Augusto de Campos tomou parte em muitas das polêmicas que acompanharam o trabalho dos assim chamados concretistas. Uma das mais retumbantes, nos agora longínquos anos 80, com o crítico literário e professor Roberto Schwarz. Outra, não menos tonitruante, na recente década de 2010, com o também poeta Ferreira Gullar.

Ao trabalho de criação poética Augusto de Campos acoplou o da tradução, por ele chamada de "transcriação". Verteu para o português o trovador medieval Arnaut Daniel, os franceses do século 19 Rimbaud e Mallarmé, ou ainda o russo do século 20 Vladimir Maiakovski. Também recriou o irlandês James Joyce, o inglês Lewis Carroll, e o estadunidense Ezra Pound. À tradução some-se a recuperação de autores brasileiros "esquecidos", como o baiano Pedro Kilkerry ou o maranhense Joaquim de Sousândrade. Esses poetas, cujas obras adormeciam no ostracismo, ganharam não somente novas edições como também estudos críticos produzidos por Augusto e Haroldo. Coube ainda a essa trupe vanguardista a rediscussão da obra de Oswald de Andrade. O poeta paulistano, um dos organizadores da Semana de Arte de 1922 e expoente do Modernismo no país, depois de décadas colecionando desafetos, jazia "hibernando", afastado do centro das discussões literárias. Os concretistas contribuíram decisivamente para recolocá-lo como um dos grandes inventores da moderna poesia brasileira.

A música contemporânea é outro dos interesses de Augusto. Escreveu "O balanço da bossa e outras bossas", publicado em 1968, e repaginado em 1978, em que analisa a Bossa Nova e seus desdobramentos. Reúne artigos em que trata do vanguardismo de João Gilberto e sua influência na obra de outros baianos, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, nomes centrais do Tropicalismo dos anos de 1960. Percorre ainda o imenso legado de Noel Rosa e Lupicínio Rodrigues, e a tão efêmera quanto instigante trajetória de Torquato Neto.

Salve, Augusto de Campos, o nome da criação.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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