Opinião

Por que cinema?

Nunca a experiência coletiva de ir ao cinema esteve tão ameaçada


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA RAFAEL AMARAL'''''
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Morto no início do mês, aos 97 anos, Giuseppe Rotunno tem uma frase necessária sobre a importância da arte em nossas vidas. Tome nota: "A finalidade da arte é libertar o espírito dos condicionamentos do cotidiano, de um pensamento limitado e da letargia que daí resulta". Qualquer sociedade sem arte presente, penso eu, está condenada à limitação e à letargia.

O grande diretor de fotografia de Fellini e Visconti parece dizer o óbvio, mas vivemos tempos em que dizer o óbvio é preciso. Tempos de ódio e comunicações rápidas, de cusparadas a qualquer ideia oposta, nos quais a arte nos ajuda a pensar, a tomar fôlego, a sair da caixa apertada em que nos encontramos, limitados a ela como estamos.

Os mais sonhadores chamam a arte justamente de fuga - como se, através dela, fosse possível escapar para algum oásis distante. Como diz Rotunno, é o caso de se libertar, não de fugir. Sim, eu entendo: às vezes é preciso encontrar um escape qualquer contra o mundo chato em que vivemos. O cinema pode ser uma interessante marreta para quebrar a caixa.

Proponho, além de Rotunno, Fellini e Visconti, doses de Bresson, Dreyer, Billy Wilder, Chaplin, cinema novo, Hollywood clássica, Marilyn Monroe, James Dean e outros.

Décadas a fio, o cinema sofre com a comum confusão dos que pretendem encaixá-lo quase exclusivamente no campo do entretenimento e da indústria (ou arte menor). Nascido como inovação científica e logo convertido em diversão de circo, a dividir espaço com mulheres barbadas e engolidores de faca, demorou para que ganhasse status de arte.

Foi chamado, por algum tempo, de "teatro filmado" e, antes que encontrasse sua linguagem, era digno apenas de alguns centavos para um público atrás de novas experiências com as tais imagens em movimento, a tal novidade. Cem anos depois, "gourmetizou-se" em salas de poltronas reclináveis e pipocas e refrigerantes caros. Virou coadjuvante.

Veio a pandemia e nem o gourmet resistiu. As salas ficaram fechadas, depois voltaram e se viram vazias. Nunca a experiência coletiva de ir ao cinema esteve tão ameaçada quanto agora. Na contramão, o streaming nada de braçadas, lança novos filmes e parece responder aos anseios de quem vive em cidades pequenas, locais distantes, sem salas de cinema.

É importante não cair nessa cilada: ver filmes em casa e na grande sala escura, ao lado de outras pessoas, são experiências diferentes. O filme pode ser o mesmo, a recepção até pode ser semelhante. Mas é provável que a imagem ampliada influencie o resultado final. Quando puxamos na memória algumas grandes lembranças relacionadas aos filmes, quase sempre tendemos a pensar nas experiências vividas nas grandes salas.

Nunca vou esquecer de algumas sessões, do clima na fila antes de entrar na sala. "Ouro e Maldição", de Stroheim, e "O Espelho", de Tarkovski, ambos na Cinemateca Brasileira; "Os Pássaros", de Hitchcock, em uma mostra dedicada ao mestre no Centro Cultural Banco do Brasil; "Terra de um Sonho Distante", de Elia Kazan, em uma Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Entre tantos outros. Dessas sessões guardo até os ingressos.

O cinema pode ser entretenimento e indústria, não há problema algum. Pode ser visto em tela grande ou pequena (melhor, claro, se for na grande). Pode acompanhar pipoca ou não. Em qualquer um dos casos, não pode deixar de ser arte. Ou seja, não pode retirar o prazer da reflexão e do incômodo, de nos fazer diferentes, de nos confrontar.

Que o bom cinema não termine no lixo, ao lado do saco da pipoca. E que os filmes de baixa qualidade nos ajudem a compreender o que os torna ruins. Que as obras-primas continuem por aí, disponíveis, e que as estrelas continuem a brilhar.

Crescemos vendo filmes - alguns mais, outros menos. Tive sorte de viver em uma família que tinha por hábito ir às finadas videolocadoras e aos cinemas. Em todas as fases da vida, nunca parei de ver filmes. Ao ser convidado pela amiga Ariadne Gattolini, editora-chefe deste periódico, para escrever uma coluna quinzenal, ela apenas me disse: "escreva sobre aqueles grandes filmes antigos que a gente ama". Era tudo o que eu queria ouvir.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista. Escreve em palavrasdecinema.com


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