Opinião

Agarrando a vida pelo colarinho

É só na vivência em comunidade, no coletivo que a vida dos humanos faz sentido


ALEXANDRE MARTINS
ANA FOSSEN_ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Começo meu texto com uma questão, que na verdade deveria ser uma afirmação, caso possamos dar a ela a devida atenção.

Que valor um sujeito dá a sua própria vida? Em tempos de pandemia, pareceria óbvio que essa poderia ser chamada de "pergunta do milhão", não obstante, tão importante pergunta foi escamoteada por outras menos cruciais. Poderia terminar minha escritura aqui, imediatamente, dizendo que o Brasil nem sequer chegou perto de discutir o valor da vida neste período tão nefasto. Ouso afirmar que poucos foram os sujeitos que pararam e se perguntaram quanto vale a própria vida.

Discutiu-se tudo e mais um pouco, desde os úteis hospitais de campanha e respiradores até o leite condensado do nosso exército. Mas ainda nas melhores discussões não se levou em conta o valor da vida. E essa inapetência para expor esta questão vai mais além de uma retórica narcisista, pois é claro que cada pessoa achará que sua vida vale muito.

Para expor o que estou pensando, partirei de duas premissas. A primeira, não valho grande coisa se eu estiver morto, ainda que tenha deixado um legado interessante aos meus e à Humanidade. Vou insistir nisso com alguma assertividade ainda que os leitores me apresentem mortos que valham alguma coisa. Por exemplo, poderíamos dizer que para uma psicanalista como eu, uma figura como Freud sobreviveu a sua morte e à passagem do tempo com muito valor. Ele inaugurou a ciência que pratico. Isso é quase uma verdade, pois se ele estivesse vivo em tempos de pandemia, com tal genialidade, teria sido de um valor ainda mais inestimável que estando morto. Imaginem que lives ele faria? Se Freud fosse imortal seguiria produzindo vasto conhecimento e enriquecendo de forma incrível essa área do conhecimento, além de se manter ao lado de sua família tocando sua vida pessoal. Transferindo esse pensamento para a vida prática e cotidiana, para nossa vida de reles mortais, caso você morra sua história se interrompe necessariamente, seus laços se mantêm no passado, ainda que com um legado, de fato, tudo acaba. Todo meu raciocínio vai nos levar a pensar que eu valho algo porque ofereço algo a alguém, porque contribuo para um outro com algo. Posso ser mãe de alguém, o amor de um parceiro de jornada, uma professora, uma psicanalista, um torneiro mecânico, um borracheiro. Vou pensar, sentir e fazer coisas que vão interferir e influenciar a vida de outrem e isso dará sentido não só a minha vida pessoal, mas também à vida de outras pessoas. Portanto, e se meu pensamento não estiver muito distópico, eu valho mais viva que morta, porque é na interação com o outro que as coisas da ordem do humano acontecem. E deste tipo de reflexão parte minha pergunta sobre que valor cada um de nós damos a nossa vida e, por conseguinte, à vida do outro. Em tempos pandêmicos, isso se faz crucial.

Minha segunda premissa, para argumentar a favor da vida, na verdade, completa o que escrevi anteriormente, ou seja, é só na vivência em comunidade, no coletivo que a vida dos humanos faz sentido. Ao contrário dos rumos da cultura atual, não é no âmbito narcísico, ou no jogo ganha-ganha que uma pessoa ou uma sociedade se beneficia. Primeiro, porque a vida é feita de uma incômoda mistura de perdas e ganhos e ao tentar impor o jogo na base do "só eu devo ganhar porque esse é meu direito"- noção moderna e absurda do conceito de liberdade - todos perdem e, estando em uma situação de pandemia, muitos morrem.

Portanto, não há vida sem coletividade, não há vida sem o outro e o isolamento deixou isso bem claro. Assim sendo, espero que no novo normal os indivíduos possam dar mais valor a sua própria vida, dando valor à vida do outro. Gostaria de ver projetos coletivos, pequenas frases saídas da boca dos amigos pensando no grupo e não em suas demandas pessoais. O novo normal exigirá de nós que agarremos a vida pelo colarinho, ou seja, que possamos sair desse narcisismo para a construção de um coletivo que legitime a possibilidade de qualquer forma de vida.

ANA CLÁUDIA FOSSEN é psicóloga e psicanalista, graduada em Psicologia pela USP e pós-graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade Complutense de Madri-Espanha


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