Opinião

Pesadelos

Quais são as possibilidades reais que nosso país tem para superar crises?


ALEXANDRE MARTINS
MARGARETH ARILHA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

As vivências que têm sido experimentadas por todos e cada um em relação à epidemia têm gerado algumas novas questões: será que isso vai seguir assim até quando? Quais são as possibilidades reais que nosso país têm para superar crises tão graves, sanitária, econômica, política? Como será possível reconstruir este país? Como foi mesmo que nos transformamos tão rapidamente no país que pode vir a ser o celeiro das novas mutações do vírus e que poderá ser isolado do resto do mundo, justamente por questões políticas e sanitárias? Como vamos sair desse enorme pesadelo? Como indicamos há cerca de um ano a epidemia de saúde mental considerada como aquela que caracterizaria a quarta onda da epidemia, ou seja, a que viria depois das três ondas iniciais já esperadas, já está aqui entre nós. Portanto, a profusão do mal-estar na cultura se multiplica, e a sensação de limbo, areia movediça, sem sentido, sem caminho, se prolifera. O Brasil acumula hoje 255.720 mortes por covid-19. Se multiplicarmos por 4 esse número, imaginando que a cada morte poderia corresponder pelo menos quatro pessoas fortemente enlutadas, facilmente chegaríamos ao número de um milhão de pessoas sofrendo fortemente por perdas inesperadas. A isso se agregariam os lutos adicionais por outras inúmeras perdas, associadas a diferentes amores e projetos de vida. Um mundo em dor. Em trauma.

No Relatório 2014/2015 - O Estado dos Direitos Humanos no Mundo produzido e divulgado pela Anistia Internacional, o tema central era a crise de violência global. Os índices verificados deveriam criar uma sensação de desconforto pelo crescente apelo da humanidade a tentativa de solução de conflitos pessoais, sociais, estruturais através de comportamentos e atitudes violentas. No entanto, aquela época, parecia que nem esta contundente verdade abalava o cotidiano monótono e anestesiado de nossas vidas inundadas de horror. Já havia registrado com surpresa a incapacidade que apresentávamos, como humanidade, para conter os conflitos e abusos dos Estados Nacionais e grupos armados. No Brasil, as crises em torno das questões da segurança pública já eram destaque, trazendo, adicionalmente, a questão do racismo. Quem se esqueceu dos casos que emergiram no Rio de Janeiro? Amarildo, que desapareceu após ser levado para uma Unidade de Polícia Pacificadora, Cláudia, atingida por disparos feitos por policiais e depois arrastada por estes mesmos policias em viatura falecendo em decorrência de ferimentos; e por fim, Marielle. Os pesadelos que vivemos se cruzam, e têm história, Não ocorrem por acaso. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, no ano de 2012, quase dez anos atrás, calculava-se que no mundo haviam ocorrido 475 mil mortes por homicídios, sendo 82% de pessoas do sexo masculino e 18% entre mulheres. Cerca de 38% dos homicídios de mulheres aconteceram na intimidade da vida conjugal. Para Zizek, um dos mais brilhantes filósofos da vida contemporânea, a violência é, de fato, um sintoma de nossas relações com o mundo. Trata-se de uma maneira de evidenciar que há algo que não funciona, uma ponta de iceberg, que está nos dizendo a todo tempo e em todo o lugar que é preciso encontrar as raízes da violência, e de verificar como e por que ela é mantida. Às vezes me pergunto: quem é mais violento do que quem? É do vírus que surge a maior violência ou é nossa por termos permitido que o mundo chegasse onde chegou?

No dia de hoje, registramos, aproximadamente, 1.212.000 mortes por coronavírus, com diferenças gritantes entre distintos espaços geográficos. Pesadelos superpostos em que a violência interpessoal, de gênero e raça e a institucional e política ocupam um lugar de destaque. A violência da palavra não dita, a ausência da palavra que diz. O gesto que elimina e desqualifica a dor, o medo, o gesto que não acolhe. A violência do excesso de violência. Que só pode ser amenizada pela palavra plena, gestores públicos em primeiro lugar. O inconsciente instalado na linguagem segue em movimento e se mostra ou se esconde nas palavras ditas ou não ditas.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo), da Unicamp


Notícias relevantes: