Opinião

Na economia superficial, não há longo prazo

Trabalhar com transformação cultural organizacional é tarefa para heróis!


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA ELISA CARLOS
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Heráclito já tinha dito que a única constante do Universo é a mudança. A diferença para hoje é o efeito miojo: instantâneo e nada nutritivo. Se nos séculos anteriores as transformações demoravam anos e tinham impactos regionais e graduais; hoje novos produtos, novas demandas, modas surgem globalmente a cada segundo e desaparecem na mesma velocidade. No entanto, mudanças estruturais e profundas resistem a acontecer.

Citando o sociólogo Richard Sennett, da Columbia University, no livro "A corrosão do caráter": "As condições de tempo no novo capitalismo criaram um conflito entre caráter e experiência. A experiência do tempo desconjuntado ameaça a capacidade das pessoas de transformar seus caráteres em narrativas sustentadas."Ou seja, não desenvolvemos a capacidade de contar a nossa própria história (ou que seja estória) de forma coerente, baseada em valores reais, verdadeiramente nossos. Nos distraímos nas marolas das redes sociais, enquanto não conseguimos lidar com a construção da percepção individual do mundo."

No século passado, as coisas estavam ilusoriamente mais "certas", num mercado industrial, rotineiro, era possível se aposentar em uma mesma empresa, já que estas sobreviviam por mais de 50 anos. Estabilidade era o que se ganhava quando se finalizava a faculdade e sua vida inteira já estava mais ou menos traçada. Era uma época em que uma empresa podia se dar ao luxo de esperar para valer bilhões, a Coca-Cola demorou décadas para virar uma marca bilionária. Hoje a escola do empreendedorismo disruptivo impõe a criação de unicórnios a toque de caixa (unicórnios são startups que valem mais de 1 bilhão de dólares). Não estou dizendo que eu gosto da ideia do resto da minha vida ser definida por acordos informais de uma instituição social baseada no fortalecimento do capitalismo, como era no século XX, nem que não acredito que uma startup pode de fato mudar o mundo. Mas hoje me pergunto, recorrentemente: para onde estamos indo com tanta pressa?

No início do nosso século, com a massificação da internet, e a "democratização" do conhecimento, surge a oportunidade de empresas tradicionais modificarem a organização de suas hierarquias convencionais, distribuindo as pirâmides, as tarefas, as funções, de forma que as relações de poder já não precisam ser mais centralizadas, estáticas e podem ser redefinidas de acordo com os projetos, squads (equipes multidisciplinares autogeridas). No entanto, muitas empresas continuam nascendo ou permanecendo hierárquicas, pela complexa, trabalhosa e difícil mudança de mindset. E mesmo algumas tantas startups (empresas nascentes com cerne em inovação) ainda refletem a hierarquia piramidal e o apego ao planejar o implanejável. Em uma sociedade de hábitos pessoais internos arraigados e constantes mudanças superficiais, trabalhar com transformação cultural organizacional é tarefa para heróis!

Por mais que sejamos mais suscetíveis às mudanças bruscas de comportamento em situações de guerras, catástrofes naturais, fome, pandemias, o que Sennett coloca é que atingimos um momento singular: "a incerteza de hoje (...) existe além de qualquer desastre histórico iminente, ao contrário, está entremeada nas práticas cotidianas (...). A instabilidade pretende ser normal." A covid só escancarou a urgência por uma mudança estrutural profunda da economia para além do uso das máscaras. E como coloca Otto Scharmer, professor de teoria de inovação do MIT, na pandemia nos ficou claro que "tudo o que eu faço reflete no mundo" e segundo ele, a única forma de transformar as instituições formais ou informais é através de um profundo olhar para dentro, é uma transformação individual.

Como humanos egóicos e materialistas, ainda estamos desenvolvendo nossa capacidade de desapegar. É preciso tempo para que relações frágeis se transformem em vínculos duradouros. É preciso tempo para que o Universo se expresse e sejamos capazes de viver no "flow". Não somos seres isolados, somos feitos para viver em comunidade, urgimos lá de dentro do nosso âmago, pela sensação de pertencimento. No pós auge do capitalismo, sobram humanos deprimidos, com senso de descartáveis, desnutrindo relações tão instantâneas quanto a lasanha pronta em 5 minutos no microondas. A mudança profunda, e que gera valor de fato para a humanidade, requer prazo, longo prazo.

ELISA CARLOS. Em constante atualização, é empreendedora, engenheira, cozinheira, mãe Waldorf da Nina e da Gabi


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