Opinião

Jardins no coração

Permanece como criança, à procura da infância que lhe foi negada


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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE (NOVA)
Crédito: DIVULGAÇÃO

Observo os desenhos que o mocinho enviou do sistema carcerário à mãe. Desenhar era uma vocação dele desde menino. Vi diversos. Traços firmes e determinados. Na hora em que passou para a adolescência, o traçado de seus caminhos se tornou tortuoso. Encobriram-se as imagens de beleza das esperanças que carregava.

Das lembranças mais fortes que tenho dele, no início da adolescência: o irmão pequenino, que não queria comer, ao colo. Dava-lhe sopa, com a maior paciência e carinho, em colheradas diminutas. Procurava ser para ele dos cuidados do pai que não possuíra.

A ausência da figura paterna, embora com residência nas proximidades, doeu muito mais que os tombos, cortes, arranhões... Hematoma sem massagem. Talvez fosse por isso que, em locais estranhos, em lugar de sentar na cadeira, ficava de cócoras em um canto sem maior visibilidade. Não conseguiu se equilibrar nas ondas revoltas de sua história e tropeçou no uso das drogas para se confortar por dentro, sem a consciência das feridas causadas pelas substâncias tóxicas. Havia algo que gritava dentro dele, que não conseguia discernir. As primeiras vieram como presente do "generoso indivíduo que torcia por ele". É tão comum...Para as demais, quando o corpo pedia, exigiram um valor. Biqueiras se sustentavam com o seu "trabalho" e de outros menores e ele assoprava, por instantes, seu desespero com o produto que o aprisionava. O tráfico se fez a possibilidade mais próxima para o garoto que passou pouco pela escola que não o compreendia e nem o encaminhou para o tratamento adequado.

No primeiro dos desenhos - os dois sob um pequeno jardim -, acima um rosto de Cristo com coroa de espinhos e asa no lugar dos olhos. Abaixo, um menino em tempo de inverno, cabelos bem cortados, sorriso anêmico, vestido com jaqueta grossa. O texto, além do "Te amo" para a mãe, baseado no Evangelho de São Marcos (9, 37): "Aquele que por ser meu seguidor, receber uma criança como esta, estará também me recebendo. E quem me recebe, não recebe somente a mim, mas também Àquele que me enviou".

Conheci-o por volta dos 10 anos. Seu olhar de busca de colo e agasalho me comovia. Jamais o vi do riso aberto, mesmo que por momentos. Permanece, pelo jeito do desenho, como criança, à procura da infância que lhe foi negada. Como não possui nada para retribuir, apresenta o Senhor com asas nos olhos que levam ao Céu. Tão doloroso e profundo! No segundo, em formato de pergaminho, uma menina de cabelos com fitas, sorriso recolhido, blusa de babadinhos em meio às flores e outra citação bíblica: "Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Agora, que sou adulto, paro de agir como criança" (1 Cor. 13, 11).

Uma fase com pensamento dos primórdios que não conseguiu viver. Ficou com a burquinha, a bola de capotão, a bicicleta, o carrinho de rolimã entalados na garganta em meio a lágrimas. Agora, como jovem, não age mais como criança, entrou para um mundo paralelo de adultos, onde há gente das margens, mas do centro também... Os das margens o aceitaram para ser um fora da lei, embora existam tantos foras da lei, em setores diversos, com possibilidades raras de grades.

Na penitenciária em que se encontra, comercializa os desenhos para se manter. Observava os seus desenhos, quando uma pessoa conhecida me contou, feliz, que o genro completara um ano sem o uso de drogas e no serviço de jardineiro na empresa. Alegrei-me com ela. O moço pensou melhor ao saber que a filha morava no ventre da jovem que lhe arrancava suspiros. Que bonito reconstruir-se a partir da jardinagem. Recordei-me de um texto de Rubem Alves (1933-2014): "Todo jardim começa com um sonho de amor. Antes que qualquer árvore seja plantada ou qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e os lagos tenham nascido dentro da alma. Quem não tem jardins por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles".

Desejo, para o moço dos desenhos, que consiga retirar, de suas entranhas, os entulhos que lhe foram impostos e fazer florescer jardins em sua alma.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista


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