Opinião

Abrindo o coração

A indiferença não tem espaço no coração de quem ama. Deus é Amor


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ARTICULISTA DOM VICENTE
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"E vos darei pastores segundo o meu coração" (Jr3,15).

Caríssimos leitores e leitoras: no final deste ano, pela graça de Deus, celebrarei a ação de graças pelos 49 anos de ordenação como padre. E agora entro num tempo de preparação para o jubileu de ouro. Há 50 anos escutei o solene anúncio: A exemplo de Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote, "tu és sacerdote para sempre" (Hb5,6).

Ser padre é um presente de Deus e também uma grande alegria. E é, ao mesmo tempo, um compromisso e um desafio contínuos. Recordo-me de um livro que o Papa São João Paulo II escreveu na época do seu Jubileu de Ouro Sacerdotal (1985), com um título que, de certa maneira, resume nossa vida de sacerdote: "Dom e Mistério"!

Às vezes, surgem perguntas sobre como é a vida de um padre. Numa certa ocasião, me perguntaram: "O que você mais gosta de fazer como padre?".

Sinceramente tudo o que faz parte da vida e da missão sacerdotal traz alegria e entusiasmo ao meu coração. Mas, com sinceridade, devo confessar que algo que mais me cativa é quando posso ouvir a voz que vem do coração das pessoas!

Diante de tantas turbulências que enfrentamos, muitas pessoas nos procuram para seus desabafos, pedidos de conselhos e orientações. Nas alegrias e tristezas da vida, sentimos uma grande necessidade de partilhá-las com alguém. Quando uma pessoa procura um padre para um colóquio, uma conversa, normalmente vem de coração aberto. E isso é tão belo, porque nos é permitido "entrar" e fazer parte da história daquela pessoa. E isto se faz mediante o diálogo sincero e respeitoso, como nos sugere o tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano: "Fraternidade e diálogo: compromisso de amor".

Há poucos dias, vivi uma experiência muito salutar, passando quase uma semana em retiro com os padres da nossa querida e amada Diocese de Jundiaí, ouvindo e meditando a Palavra de Deus. O Retiro aconteceu no Seminário Santo Antônio, na simpática e inspiradora cidade de São Pedro, embelezada pela abundância de águas e serras; um verdadeiro cartão postal da natureza. Lá meditamos muito sobre o ser padre, que é um compromisso e um risco ao mesmo tempo. Risco por conta dos tantos desafios que enfrentamos; e compromisso, porque devemos ser fiéis à vontade de Deus que nos escolhe e nos envia pelo mundo afora como anunciadores do Evangelho e da esperança.

O retiro teve como tema: "Ungidos com o óleo da alegria", pois nós, sacerdotes, cremos que somos ungidos com o óleo da alegria e do Espírito Santo. Mesmo nos momentos mais difíceis da vida, jamais podemos perder a força renovadora que vem da alegria, como diz a Palavra: ¨Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito, alegrai-vos" (Fl 4,4). E isto tem tudo a ver com a vida e a história de cada pessoa. Somos muitas vezes surpreendidos e perseguidos por duras provas. Porém, não podemos permitir que o óleo da alegria se perca em meio às intempéries que sempre farão parte da vida de uma pessoa ou de um povo que crê no Senhor e O adora.

Fico pensando que, neste momento, é possível que em algum lugar possa haver alguém querendo e precisando ser ouvido. E para cada um eu também gostaria de abrir o meu coração e dizer, com toda a sinceridade, que Deus não está ausente de nossa vida, inclusive e, sobretudo, quando nos sentimos fragilizados por alguma situação.

Sendo assim, creio e quero crer que Deus sempre cuida de todos nós. E o olhar de Deus não é de um vigiador e nem de um castigador! Deus não é indiferente à nossa dor, pois a indiferença não tem espaço no coração de quem ama. Deus é Amor (1Jo4,8). E é por isso que Ele entende a cada um e quer o bem e a felicidade de todos!

Estamos sempre diante de um longo caminho a ser percorrido. Nem sempre é fácil, e às vezes nos sentimos exaustos, outras vezes queremos caminhar e nos faltam motivações. E mesmo assim, precisamos continuar. Como aprender a caminhar em meio às pedras e aos espinhos? Antonio Machado, poeta espanhol, nos ajuda a entender essa questão, quando diz "caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar". Da mesma forma se aprende a amar, amando. Aprende-se a viver, vivendo, e se aprende a vencer, tentando sem desistir.

Continuemos caminhando, à luz da esperança, mesmo em meio a este quase um ano de enfrentamento contra a covid-19. Diante de todas as lutas e inseguranças, basta confiar, saber esperar e crer na força que vem do Alto! Não nos fechemos em nós mesmos, pois dias melhores virão, na medida em que vivermos abrindo o nosso coração!

DOM VICENTE COSTA

é bispo diocesano


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