Opinião

Na verdade, o outro não importa

Só somos capazes de olharmos para nós mesmos


ALEXANDRE MARTINS
FELIPE DOS SANTOS SCHADT ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Quando Marshall McLuhan, um cientista da comunicação canadense, falou há mais de 80 anos que o mundo caminhava para se tornar uma grande aldeia global, ele talvez não imaginasse que isso aconteceria tão rápido. Não chegou a ver o que a internet fez com o mundo e como ela aproximou pessoas de uma maneira nunca imaginada.

Nunca se conversou tanto como hoje. As barreiras geográficas não nos impendem mais de ter contato com alguém do outro lado do oceano. A língua também já não é um problema, já que traduzir uma frase se tornou tão trivial quanto tirar uma foto. O mundo ficou menor e a passos largos caminhamos para nos tornamos uma comunidade global que divide a mesma cultura. Dentro do ciberespaço, vivemos na cibercultura.

E é nesse espaço que observo um novo estado humano. O estado virtual. Vou explicar como isso funciona, mas para isso eu preciso que você venha comigo num passeio com Hobbes e Rousseau para falarmos sobre outros dois estados humanos: o estado de natureza e o estado social.

Thomas Hobbes, em seu famoso livro O Leviatã, nos ensina que o ser humano é um animal que precisa ser enjaulado. Nós, conduzidos pelos nossos desejos, fazemos tudo o que podemos para saciá-los. No estado de natureza, consegue saciar o desejo aquele que tiver mais força para fazê-lo. Imagine que você encontra uma macieira que só tem uma maçã. Com fome, você sente desejo pela fruta e resolve ir buscar. Não precisa pedir pra ninguém, nem se preocupar se a árvore pertence a alguém. Tá com desejo? Vai lá e faz! Mas uma outra pessoa teve a mesma ideia que você e nenhum dos dois quer dividir a maçã. O que fazer? Lutar por ela. Lei da natureza. Vence o mais forte.

Já Jean-Jacques Rosseau, famoso pelo livro Do Contrato Social, entende que a partir do momento que o ser humano percebe sua fragilidade na natureza, entende que a única maneira de sobreviver é cooperando com outros humanos. Unir habilidades nos daria uma vantagem na cadeia alimentar, mas para isso, precisávamos enxergar o outro como um indivíduo. A partir do momento que eu entendo a existência do outro e portanto sua importância, crio uma relação social com ele. E nesse instante que passamos para o estado social. Isolados não valemos muita coisa, agora juntos, conseguimos prosperar.

A internet proporciona um espaço que essa cooperação pode ser elevada a potências jamais vistas antes. Se em grupos locais conseguimos sobreviver e em grupos maiores conseguimos colocar nossa espécie no topo do mundo, imagina o que aconteceria se essa cooperação fosse em escala global? O ciberespaço é o local que isso pode acontecer, já que dentro da internet não existem barreiras geográficas, linguísticas ou culturais. A internet é um universo inédito com infinitas possibilidades e uma delas é: unir bilhões de humanos para trabalharem juntos.

Mas parece que o tiro saiu pela culatra da banda larga. Ao invés de olharmos para os outros, a internet nos deu um espelho gigantesco e só somos capazes de olharmos para nós mesmos. Ao bom estilo Narciso, personagem mitológico que era apaixonado pelo próprio reflexo, nós estamos cada vez mais individualistas, postando, falando, filmando e enaltecendo a nossa própria vida em troca de recompensas em forma de curtidas. Todo mundo está produzindo algo sobre si, mas ninguém se importa com o conteúdo do outro. O que há é uma troca nada sincera de gentilezas: "me segue que eu te sigo de volta". E nessa onda, a gente se coloca num lugar que nos impede de ver o outro. E é isso que eu chamo de estado virtual.

No estado virtual a gente só simula uma cooperação com outras pessoas. Porém, a gente ignora o outro. E a gente faz isso toda vez que preferimos falar ao invés de ouvir. E na internet todo mundo tem algo a dizer. E é por causa do estado virtual que a gente é tão resistente a um lockdown nessa pandemia, por exemplo. Porque isso pode até salvar o outro, mas me fere e eu não quero abrir mão dos meus prazeres por causa da segurança alheia. Não me interessa se outras pessoas estão morrendo, na verdade, o outro não importa.

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


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