Opinião

Revolução pela música

Adoniran chamava Pelão de seu "Pedro Álvares Cabral"


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

José Carlos Botezelli, o Pelão, é nome importante e respeitado na música brasileira contemporânea. Produtor musical, Pelão foi o responsável por levar para estúdio pela primeira vez as vozes de Cartola e Adoniran Barbosa, para citar apenas duas das principais "descobertas" do moço. Nascido em São José do Rio Preto, em 1942, mas criado na capital paulista, Pelão é um personagem grande no tamanho e na relevância. Escrito pelo jornalista Celso de Campos Júnior, o livro "Pelão, a revolução pela música", do selo Garoa Livros, diverte e esclarece. Relata histórias de um tempo em que a venda dos discos era fundamental para o artista, seja ele intérprete, compositor ou instrumentista. Era preciso lançar discos, cujas vendas impulsionavam a execução no rádio (ou cuja execução impulsionava as vendas), abriam portas para shows e apresentações. Nesse cenário, o protagonismo do produtor do disco tornava-se inquestionável. Era o sujeito que pensava o todo daquele produto, da escolha do repertório à dos instrumentistas e arranjadores, passando pelos estúdios de gravação - em que acompanhava as sessões e dava seus pitacos - chegando à capa e ao lançamento.

O livro agrada a começar pelo formato e tamanho de um antigo long-play, tão presente no dia a dia de outros tempos. Mostra o garoto urbano que, aos 15 anos, matricula-se numa escola de agricultura, no interior paulista. Ganha dos veteranos o apelido jocoso de "Pele Fina", referência à suposta suavidade do moço da cidade grande. Pois o rapaz revela-se um casca-grossa - daí o Pelão --, característica que o acompanha não só na adolescência escolar como pela vida adulta e profissional. De volta a São Paulo, organiza bailinhos, e arruma emprego numa rádio. Segue depois para a televisão, trabalhando como "faz tudo" de programas de auditório. Aterrissa numa gravadora, na área de publicidade e promoções. Entusiasma-se com a fita demo de um conjunto inovador, que mistura rock, baião e pop, mas a empresa esnoba o grupo, e os novatos estouram meses depois em outra gravadora, vendendo milhares de discos: eram os "Secos & Molhados", que revela ao Brasil Ney Matogrosso. O episódio evidencia uma das características do futuro produtor: o de garimpar talentos, novos ou veteranos.

Nessa de querer inovar Pelão conquistou seus maiores trunfos. O primeiro deles foi levar para estúdio o carioca Nélson Cavaquinho. Em 1973, aos 60 anos, o boêmio compositor poderia finalmente gravar como se estivesse em seu mais do que familiar universo, o dos bares e biroscas cariocas. Pelão pensou num disco para destacar o violão único de Nélson. Agregou ao projeto o mais fiel parceiro do sambista, Guilherme de Brito, coautor das antológicas "A flor e o espinho" e "Pranto de poeta". O disco fez sucesso de público e de crítica. Em seguida, Pelão foi atrás de Adoniran Barbosa que, aos 63 anos, dez anos após o estouro de "Trem das onze", ainda não havia gravado um álbum para chamar de seu. A fim de não sumir do mapa, Adoniran fazia pontas como ator em filmes, novelas e comerciais. Depois do disco produzido por Pelão e gravado em 1974, a carreira do compositor deslanchou, com shows pelo país inteiro. Cronista dos dramas cotidianos da cidade, Adoniran usufruiu o sucesso. Ele chamava Pelão de seu "Pedro Álvares Cabral".

Para o carioca Angenor (assim mesmo, com "ene") de Oliveira, mais conhecido como Cartola, Pelão conquistou algo semelhante. Em 1974, com 65 anos de idade, Cartola era reverenciado no mundo do samba, mas jamais havia lançado disco próprio. Sob os cuidados do produtor, o compositor gravou seu primeiro álbum. E há histórias com outros talentos, de estilos e personalidades tão diferentes: Nélson Sargento, Carlinhos Vergueiro, Carlos Cachaça, Donga, Quinteto Violado, Raphael Rabello, Radamés Gnattali, Inezita Barroso. Mestre Aldir Blanc resume a dívida cultural que brasileiros temos com o personagem: "não há dinheiro que pague, não apenas os serviços à nossa música, mas a generosidade e o desprendimento com que foram prestados". "A revolução pela música" torna-se leitura - e audição - obrigatória.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura para o Ensino Médio


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