Opinião

Vírus, zumbis e ataques de tubarão

Negam a presença da doença enquanto pessoas desfalecem pelos cantos


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA RAFAEL AMARAL'''''
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

No início de 2020, quando a pandemia do coronavírus avançava, o filme "Contágio", de Steven Soderbergh, voltou a fazer sucesso. A obra - de repercussão tímida quando lançada, em 2011 - expressa com fidelidade, dizem alguns especialistas, o que acontece quando um vírus espalha-se entre nós, infectados e hospedeiros. Muita gente curiosa correu para assistir.

Há um bom tempo a sétima arte aposta em catástrofes para vender ingressos e pipoca. O cinema americano é mestre nesse filão. Se há prédios para derrubar com terremotos, cidades para destruir com meteoros, há também pragas e vírus perigosos. Há, sobretudo, o medo provocado por um mundo desabitado e pós-apocalíptico.

Clássicos como "A Ilha dos Mortos" e "A Orgia da Morte" convidam-nos a um banquete maldito ao lado de Boris Karloff e Vincent Price em cenários de epidemias e pestes. Invisível, o mal nutre-se do corpo desses atores, de suas expressões, do medo que percorre a face dos inocentes aprisionados. A cada revisão de "A Orgia da Morte" fico de boca aberta ao perceber o magnífico uso da cor vermelha como representação da praga.

Da mesma época temos "Mortos que Matam", também com Price, agora no papel de um sobrevivente em um mundo vazio e atacado por zumbis (você deve se lembrar mais de "Eu Sou a Lenda", com Will Smith, baseado no mesmo livro). O cinema americano não demorou para se dar conta de que histórias assim - cujos "monstros" eram representações das doenças da sociedade - demandavam poucos dólares e podiam render muito.

Ainda nos anos 1940, o mestre Jacques Tourneur fez "Sangue de Pantera", no qual a bela Simone Simon transforma-se em felino - o que, com razão, nunca nos é mostrado. Se "Orgia" se alimenta do vermelho, "Sangue de Pantera" aposta nas sombras, na sugestão, na ideia de que o monstro está sem estar, perfeita metáfora do medo.

Mais do que criaturas, importava o pavor gerado por pessoas presas em suas casas, sem a quem recorrer, quando o mundo lá fora já estava reduzido a pó. Para cineastas e produtores com pouco dinheiro, era o gancho necessário. Foi assim que George A. Romero fez, em 1968, o primeiro filme moderno sobre zumbis: "A Noite dos Mortos-Vivos".

"Tanto o terror quanto as pessoas que o confrontavam tinham de ser verossímeis. Elas tinham que pensar e reagir como as pessoas comuns se comportam em uma crise de outra natureza", explicou o roteirista do filme, John Russo. Pessoas sem poder sair de casa, sob o risco de serem atacadas por um zumbi - ou por um vírus. Soa atual, não?

Se não à frente, ao fundo as epidemias e pestes deram corpo a alguns grandes filmes realizados fora de Hollywood. Em "O Sétimo Selo", um cavaleiro volta das Cruzadas, no terreno da peste negra, e é convidado pela Morte para um duelo de xadrez. Essa aparição, nos primeiros minutos, ainda nos deixa atônitos. Ingmar Bergman era um gênio.

Do famoso livro de Thomas Mann, "Morte em Veneza" narra os últimos dias da vida de um artista (compositor no filme, escritor no livro) em passagem pela cidade-título, atingida por uma epidemia de cólera. A doença é pano de fundo enquanto seguimos o silencioso e pálido Gustav von Aschenbach de Dirk Bogarde. O filme celebra a procura pela beleza (materializada no jovem Tadzio) como contraponto à doença e à morte.

Ao questionar as pessoas ao redor, von Aschenbach percebe a tentativa de alguns para esconder a epidemia. Negam a presença da doença enquanto pessoas desfalecem pelos cantos. A beleza não resiste. As crianças angelicais, em roupas brancas, dividem o cenário com uma Veneza convertida em cenário de história de horror.

Entre os vários filmes que nos ajudam a pensar no tempo presente, é provável que nenhum supere "Tubarão", de Steven Spielberg. Em cena, um policial descobre que uma criatura está no mar e oferece perigo aos banhistas. Ele manda fechar as praias. É verão, os comerciantes da cidade lucram com o turismo. A interdição acarretará arrecadação menor. Um político mau-caráter manda reabrir as praias, pede que os banhistas aproveitem o mar e os dias de sol. Prato cheio para o peixe de garras afiadas. Soa atual, não?

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista. Escreve em palavrasdecinema.com


Notícias relevantes: