Opinião

Amigo é coisa para se guardar...

Faz parte desta experiência estar aberto e disposto para ajudar


divulgação
Wagner Nacarato
Crédito: divulgação

"O que foi feito, amigo, de tudo que a gente sonhou? O que foi feito da vida? O que foi feito do amor? Quisera encontrar aquele verso menino que escrevi há tantos anos." Sonhos são coletivos. Disse Joseph Campbell que mitos são sonhos coletivos. E Jung, certa vez, perguntou: qual o seu mito?

Desde minha adolescência, amigos e eu, saímos ao entorno do colégio onde estudávamos, pedindo à vizinhança jornais velhos para que pudéssemos vender. Com o dinheiro arrecadado, comprávamos lâmpadas, soquetes e fiação para compor a iluminação das peças que realizávamos na escola. Fazíamos aquela ação com alegria e disposição. E festejávamos quando os atores eram iluminados e as diferentes cores criavam atmosferas nas cenas.

Na juventude, o sonho exigiu outros afazeres. Batemos à porta de parentes para que nos ajudassem com algum patrocínio. Enquanto uns costuravam e pintavam os painéis para os cenários, outros confeccionavam adereços para as personagens. E depois com o dinheiro arrecadado com a venda de ingressos, juntos, decidíamos sua divisão. Para aquele que investiu seu próprio dinheiro na peça, era o primeiro a receber seu investimento de volta.

Era uma festa trabalhar assim. Era uma grande irmandade. O Teatro, como arte coletiva, foi uma verdadeira escola de solidariedade. Às vezes, viajávamos para cidades distantes, a fim de uma única apresentação. Passávamos o dia inteiro montando o cenário e, ao chegar a hora da apresentação, apenas quatro pessoas na plateia. Sim, quatro! E com convites. Mesmo assim, apresentávamos a peça e, exaustos, desmontávamos tudo no mesmo dia. E saíamos do Teatro felizes. Os "amigos irmãos" não deixavam a peteca cair. Estava tudo certo. A vida um dia iria mudar e seríamos vistos, ou melhor, reconhecidos. Naquele momento, o que importava, era criar e estarmos juntos.

Certa ocasião, já professor de teatro, em Campinas, montamos "Vestido de Noiva", de Nelson Rodrigues. Um grupo de atores jovens e entusiasmados. Encaminhei para o colégio responsável pela montagem o projeto para a confecção do cenário, esperando que, no dia da estreia, tudo estivesse pronto. Na véspera da apresentação, ao chegar no teatro, não havia nada. Só algumas placas de papelão empilhadas no chão. O elenco olhou para mim e disse: e agora? Foi ali um grande momento para todos. Sentamos e dividimos funções. Dei dinheiro para a compra de algumas revistas de noivas, massa corrida e tinta. As garotas recortavam as imagens das revistas e colavam nos papelões, que se transformariam nas paredes de casa. Depois cobríamos tudo com a massa corrida, deixando transparecer algumas partes das fotos. Por cima de tudo, uma mão de tinta. Era como se a casa guardasse os sonhos das personagens. O passado, o sonho, ainda estava lá, resistindo após a passagem do tempo. Depois esticamos um tule antigo de um lado a outro da moldura do palco e com vários suportes para velas, pintamos a cena. Levei alguns móveis e tapetes da minha sala e outros atores compuseram com adereços de suas próprias casas. Resultado? Um belo cenário. Antes da apresentação, chamei a todos e disse: assim se faz teatro. Ninguém pode nos impedir de sonhar, de realizar nosso trabalho. Levem isso para suas vidas. Juntos conseguimos "dar a volta por cima" e, agora, disfrutem do espetáculo.

A "irmandade" sempre foi se alterando. Saia um, entrava outro. Mas a força dos "amigos irmãos" esteve sempre presente. Reuniam-se, sempre que necessário, para construir o mundo do teatro. Fomos premiados, reconhecidos, aplaudidos. E aprendemos que o grande prêmio recebido era simbólico. O que de fato importava era estarmos juntos, experimentando diferentes emoções.

Não importa em que lugar eu esteja, sempre levo esta experiência e ela, sempre, atua como uma enzima, capaz de acelerar processos. No fazer teatral a obrigação é coletiva. Nunca dizemos que a função não é a nossa. Não sou, apenas, o diretor de cena. No trabalho teatral, temos sim, que nos abrir para tudo e para todos. Vale ressaltar que existem diferentes artistas de teatro, como existem diferentes profissionais da mesma área, ou seja, depende de você a mudança.

Neste momento de pandemia, aproveito este espaço de escrita para relembrar minha trajetória, desejando, esperançoso, que dias melhores virão e que, novamente, a força do trabalho coletivo, por meio do teatro, ressurja das cinzas como a Fênix.

Aprendi que a vida é sincrônica e que, em algum lugar, as forças do bem já estão preparando a "irmandade" que se reunirá e atuará em sua nova missão para propor um mundo novo, com vacina, respeito, verdade e misericórdia, parafraseando a cantora Maria Bethânia. "Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves". Sigamos.

WAGNER NACARATO é coordenador de cultura, professor e diretor de teatro


Notícias relevantes: