Opinião

Terceira idade e feminismo

O feminismo não é feito somente de protestos e movimentos de massa


ALEXANDRE MARTINS
ANA FOSSEN_ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Comemoramos nesta semana mais um Dia Internacional da Mulher, mas também, completamos um ano do anúncio oficial feito pela OMS (Organização Mundial da Saúde) que comunicava ao mundo a pandemia.

Cabe aqui uma reflexão sobre o feminino e o feminismo. Viciamo-nos em pensar o feminismo em grandes - e não pouco importantes- causas como a violência doméstica (cujas cifras são arrebatadoras), nas diferenças e preconceitos culturais, na pouca valorização do feminino no mercado de trabalho. Também nos habituamos a pensar no feminismo como um movimento de mulheres jovens. Historicamente, as muitas ondas feministas envolviam estudantes, mulheres jovens de determinados setores, porque talvez as mais idosas não se aventurassem em grande número a se engajar ou talvez lhes faltasse um bom tanto de coragem para transgredir. Inclusive, muito comumente associamos mulheres idosas ao machismo, o que é um fato, mas talvez possamos observar de perto algumas exceções. Tenho uma teoria cotidiana de que algumas mulheres são mais feministas do que imaginam.

Durante este ano de pandemia tive a oportunidade de observar a reação de muitos idosos. Idosos da minha família, pacientes, pais e avós de amigos e inclusive alguns vizinhos. Algo no comportamento das mulheres deste grupo me chamou a atenção, elas são muito solidárias e se dispõem a aguentar algumas situações de forma inigualável. Deste fato extraio minha surpresa, pois temos a impressão de que mulheres nascidas nas décadas de 30 ou 40 são belas, recatadas, do lar e machistas. Desconstruí um preconceito, elas são com estes e outros comportamentos uma semente importante do feminismo, pois com seus exemplos nos permitiram alguns avanços. Temos que admitir que o feminismo não é feito somente de protestos e movimentos de massa, temos que aprender a valorizar os movimentos e irradiações do microcosmos. Até porque o que é produzido na massa, pode cegar. Nossa realidade está atolada destes exemplos.

Para aproveitar a homenagem ao Dia da Mulher posso lhes dizer que fiquei extremamente orgulhosa das idosas da minha família e de outras que suportaram estoicamente a solidão da viuvez, o isolamento, o medo do vírus, da morte, as tarefas da casa que já não estavam lá tão acostumadas a realizar, e inclusive por terem que se adaptar com todas as dificuldades que a idade impõe a se comunicarem por via digital. Sou voluntária em uma ONG e, emocionei-me profundamente, pois não faltaram exemplos de mulheres de idade avançada que arregaçaram as mangas para produzir alguma renda em tempos de fechamento, fome e desemprego. Fizeram o possível para que algo delas chegasse a seus familiares e amigas, também idosas, através de um telefonema, um bolo, um crochê, um feijão fresco.

Fui testemunha da existência de titãs de cabelos brancos e rugas no rosto suportando momentos de grande tensão, pois elas se sabiam alvo prioritário do vírus. Inclusive me surpreendeu a capacidade e lucidez com a qual assistiam aos noticiários e se dispunham a realizar reflexões que muitos jovens não o fizeram. Não houve negacionismo, nem idealizações mágicas, nem medo de acordarem com a aparência de um jacaré.

Elas são a semente do feminino e do feminismo. Tive que "dar o braço a torcer" e admitir que ouvir minha mãe me dizendo, na minha juventude, que eu deveria suportar as adversidades e nunca desistir foi um exemplo e um conselho de suma importância.

Mesmo em total desamparo governamental e, às vezes, familiar, essas mulheres da terceira idade puderam nos transmitir uma experiência afetiva que nos ensina a sobreviver diante do medo e do caos.

Que nós mulheres nos lembremos delas, que não são feministas, como um início possível de um processo de resistência e mudança.

ANA CLÁUDIA FOSSEN é psicóloga e psicanalista, graduada em Psicologia pela USP e pós-graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade Complutense de Madri-Espanha


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