Opinião

A teimosia que mata

Ele continua a mostrar uma teimosia que mata, ignora a ciência


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SISTEMA PENITENCIARIO FABIO JACYNTHO SORGE
Crédito: divulgação

A cardiologista Ludhmila Hajjar não aceitou o convite para assumir o Ministério da Sáude no governo Jair Bolsonaro.

Em entrevista à CNN, a médica esclareceu que não aceitou o cargo por motivos técnicos, bem como que sofreu ameaças de morte, ao ser cotada para o cargo.

Ludhmila esclareceu que se reuniu com o Presidente no último domingo (13) e que deixou claro para o mandatário a sua divergência em relação a política do Governo em dois pontos específicos, o tratamento precoce e a necessidade de lockdown em algumas situações.

Nas palavras dela: "Sou médica, cientista, especialista em cardiologia e terapia intensiva, tenho toda minhas expectativas em relação à pandemia. O que eu vi, o que eu escrevi, o que eu aprendi está acima de qualquer ideologia e acima de qualquer expectativa que não seja pautada em ciência".

Ou seja, para combater a pandemia o Brasil precisa se pautar em evidências científicas, atender melhor as pessoas com diagnóstico precoce, além de um programa de vacinação em massa e a união em relação ao discurso nas diversas esferas governamentais.

Já em relação ao suposto tratamento precoce, a médica esclareceu que: "Algumas medicações pregadas, como a cloroquina, ivermectina, azitromicina, o zinco e a vitimina D já se demonstraram não ser eficazes no tratamento da doença (...) Muitos de nós prescreveram cloroquina. Eu mesmo já falei isso: eu também [prescrevi]. Até que fomos lidando com os resultados que a ciência nos trás e inúmeros estudos vieram para nos mostrar, de maneira definitiva, a não eficácia desses tratamentos. Isso é algo que eu pontei e é um assunto do passado."

Em relação ao lockdown, Ludhmila afirmou que a medida pode ser empregada e que tem eficácia científica comprovada, para reduzir a propagação da doença. E mais que o Governo Federal deveria apoiar os Estados e Municípios que a utilizam, mostrando união e um discurso coeso.

Por fim, em relação ao comportamento do Presidente, ela disse que Bolsonaro está preocupado com o país, mas que tem a visão e os posicionamentos dele pautados pela questão econômica.

Confesso que a postura da médica me pareceu a mais sensata, tendo em visto o ocorrido com Nelson Teich no ano passado. Para quem não se lembra, o médico assumiu o Ministério da Saúde em 17/04/2020 e ficou menos de um mês no cargo, porque não concordava com o uso da cloroquina no combate à covid-19, algo defendido pelo Presidente. Diante desse precedente, faz todo o sentido ter uma entrevista pessoal com Bolsonaro para alinhar as expectativas e se não houver convergência de ideias, como foi o caso, de fato é melhor não assumir o cargo, como a cardiologista fez.

Por outro lado, a postura de Bolsonaro é lamentável. Ele continua a mostrar uma teimosia que mata, ignora a ciência e contribui decisivamente para o agravamento da pandemia no país. Com esse comportamento, certamente não terá qualquer profissional minimamente gabaritado para ocupar o Ministério da Saúde e contará apenas com nulidades, como o general Eduardo Pazuello, para executar as suas estapafúrdias ordens.

As posições da médica Ludhmilla sobre o enfrentamento da pandemia são corretas e amparadas na ciência e se tivéssemos um Presidente minimamente sério, ela teria sido contratada e apoiada pelo Governo. Mas como temos o teimoso Bolsonaro, seguiremos acumulando recordes seguidos de mortes, já que na média diária de mortes por covid-19, foram 1.111 nas últimas 24 horas, sendo que neste domingo o país totalizou 278.327 óbitos. Com isso, a média móvel de mortes no Brasil nos últimos 7 (sete) dias chegou a 1.832, batendo novo recorde.

É preciso pensar na população que sofre com a pandemia, nas pessoas doentes, naquelas que perderam entes queridos e caminhar com a ciência para enfrentar a questão. Infelizmente, essa não parece ser a posição do Presidente do "E daí" que não mostra qualquer empatia por ninguém.

Vendo a entrevista da médica Ludhmila Hajjar fica claro que o Brasil, por teimosia do presidente, perdeu mais uma oportunidade de ter profissionais sérios e capacitados para enfrentar a pandemia. Já perdemos Mandetta e Teich e sequer teremos Ludhmila. E mais, diante do comportamento de Bolsonaro, as perspectivas para o futuro são sombrias.

Fábio Jacyntho Sorge é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí


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