Opinião

O medo e o colapso das nossas crenças

Aprendemos desde pequenininhos que não há cadeiras para todos


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA ELISA CARLOS
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

O mundo é resultado das nossas crenças individuais que compiladas formam uma crença coletiva. É o que dizem muitos dos grandes pensadores, como Einstein: "o mundo como criamos é o resultado do nosso pensamento, não existe possibilidade de mudar o mundo sem mudar nosso pensamento". E já faz algum tempo, disse Fritjof Capra (escritor, físico e ecologista), que entramos em uma crise, além da saúde, da economia, da questão ambiental, estamos em uma crise de percepção coletiva.

Escolha sua crença, há algo em comum em todas elas, o que nós pensamos, acreditamos, escolhemos e fazemos, cria o mundo que está à nossa volta.

Rudolf Steiner (filósofo austríaco, criador da antroposofia) coloca que todos os nossos pensamentos e atos ficam impressos em outros planos universais influenciando toda a evolução da humanidade. Lhe parece muito abstrato? Então Tom Campbell, físico nuclear, diz que, em relação ao Universo, nós somos como uma célula num corpo humano e, portanto, tudo o que fazemos reflete, mesmo que pouco, no todo. Na física newtoniana toda ação corresponde a uma ação de igual intensidade no sentido oposto, e, na física quântica, com o gato de Schrodinger, entendemos que a presença do observador influencia o resultado do experimento. O gato morreu ou não? Os dois! Lhe pareceu muito concreto? Os budistas acreditam que a decisão de como lidar com o que acontece no mundo está dentro de nós e que nossas decisões serão respeitadas por todo o universo. Na bíblia a escolha também é citada, no livro de Gênesis, Deus fala para Adão que ele tinha uma escolha, a de não comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Hoje Adão provavelmente ia dizer que a culpa foi da Eva. E nem vou me dar ao trabalho de falar da auto-responsabilização que a psicanálise propõe.

Aprendemos desde pequenininhos, a exemplo da dança das cadeiras, que não há cadeiras para todos. Todos - menos um - serão eliminados da brincadeira. Extrapolando a experiência quando adultos, sentimos, acreditamos, vivemos na escassez. Não há recursos para todos. Preciso garantir o meu: preciso acumular. E quando eu tiver o suficiente, ou melhor, mais do que o suficiente, só então eu posso ajudar a quem não teve a mesma sorte.

Lex Bos (autor antroposófico, fundador do Nederlands Pedagogish Institut), no livro Doze Dragões e Charles Eisenstein (filósofo contemporâneo que cunhou o conceito de Economia Sagrada), no seu livro Sacred Economy, concordam que o que alimenta a escassez e acúmulo é o medo. O medo mais intrínseco de não ter para mim. E, na sociedade capitalista, todos somos convencidos a querer as mesmas coisas… raras, escassas, vips, exclusivas. E quanto mais nos vendem a exclusividade, maior a satisfação ilusória de ter alcançado a última cadeira.

O medo, segundo Otto Scharmer (professor de inovação na Universidade de Massachussets MIT Ulab), é o ápice do abscencing, sentimento intrínseco de não pertencimento, de distância emocional que gera violência de vários níveis, inclusive estrutural, a mais complexa, silenciosa e duradoura delas. Já diria Marshall Rosenberg (criador da comunicação não violenta), toda violência é uma necessidade interna não atendida. O medo é uma construção social baseada numa forma de ver o mundo.

Mas tanto Otto, quanto Capra, quanto Tom Campbell, Einstein, Eisenstein, Rosenberg ou Bos (já citados nesse texto) martelam que não há mudança efetiva se tentarmos agir sobre os eventos, sintomas. Tão pouco se agirmos em instituições ou comportamentos coletivos. Eles acreditam que a mudança efetiva ocorre a partir da transformação da percepção individual sobre o que estamos fazendo aqui e agora como seres interconectados.

Hoje recebi um textinho fofo no Whatsapp, que infelizmente não tinha o autor citado. Era um diálogo entre um mestre budista e um discípulo, mas que poderia facilmente ser uma conversa entre empreendedores sobre um grande problema do mundo. E entre tantas passagens, havia uma que para mim foi muito conveniente: "Aproveite a oportunidade que a vida lhe apresenta neste momento para fazer um trabalho interior, talvez um dos mais importantes dessa experiência. Pare de ver problemas e comece a ver oportunidades." É paradoxalmente assustador e libertador compreender que o mundo que eu enxergo depende exclusivamente de mim.

Elisa Carlos. Em constante atualização. Empreendedora, engenheira, cozinheira, mãe Waldorf da Nina e da Gabi


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