Opinião

Mulheres, linguagem e política

Parece que o que vale é o voto futuro. Mas a vida ocorre agora


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MARGARETE ARILHA NOVA
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O que significaria fazer uma revolução hoje? O que significaria manter condições de diálogo e de interlocução com o poder, com os poderes, com o Estado? O que significaria fazer isso tudo sem a presença física nas ruas? Falar disso significa falar de uma história, em perspectiva. Estamos numa outra e perigosa etapa da pandemia no Brasil. Iniciamos uma nova empreitada de sobrevivência a um processo de vida de desproteção e açoite. Agora a vida parece que vem para dividir e selecionar os/as aptos para a manutenção de um raro regime de dores, confusões, sofrimentos e mortes. Nada importa muito fora do escopo da reeleição. Isso para quem vai se candidatar. Mas no momento, o foco para os cidadãos qual seria? E para as mulheres para onde olhar? Mesclada entre a solidão do cuidado de si e da vida da casa, com pouco recursos para sobreviver emocionalmente e fisicamente é a vida comum e corrente que acontece. E não sabemos muito bem como lidar com tanto sofrimento e incerteza ao mesmo tempo. O tempo da sobrevivência pode ser o único a definir as vidas incertas. Mas isso é pouco. Um critério ético deveria fazer surgir um pouco mais. Meio verdade, meio mentira, aquele homem, ele não, ou o inominável, que assim se nomeia, provoca em muitos um certo asco, o outro quiçá. De toda forma, suas pontas de ação, suas risadas soltas, seu escárnio, atordoa porque leva um nome do pai, aspira a ser pai de todos (será?), a representar a lei. Verdades e mentiras. Mentiras e verdades. Parece que o que vale é o voto futuro. Mas a vida ocorre agora. Nossa, dos filhos, famílias e comunidades.

Anos de construção de políticas públicas em processo de construção democrática não deveriam terminar na desestruturação total da máquina de Estado. Alguém sabe o que vem acontecendo com o Programa Nacional de Imunização do País? O que vem ocorrendo com a Coordenação de Saúde Mental do Ministério de Saúde? Com a área técnica de Saúde da Mulher? De 2013 até o momento, no Brasil, um ponto de inflexão de busca de maior incidência política de uma sociedade que desejava participar do poder de um modo distinto, o que poderia ser hoje chamado como movimento social? No caso do Brasil, a vasta e extensa e densa experiência do embate entre movimento social e Estado, mesmo sem internet (!!), experiência travada desde os anos 80, portanto, o que se dizia era que o Brasil, em tudo, era um país exemplar. O processo de redemocratização, com a entrada na relação com o Estado, as experiências de programas de saúde, mas especialmente da relação política e técnica do que seria a demanda das questões das mulheres, da agenda das mulheres e do governo com o Estado cruzou o planeta o papel das redes, especificamente, da Rede Feminista, e da Comissão de Cidadania e Reprodução e outras que surgiram posteriormente, o papel da articulação de mulheres negras, de mulheres jovens, a entrada na rede pública de saúde, com ocupação de postos de poder, esforços de capacitação de profissionais, produção de material educativo, e execução de pesquisas. A definição de novas políticas públicas e o espaço de criação de órgãos de controle social, cada momento foi o de construção de novas linguagens, de novas políticas e de um novo fazer político.

Não sabíamos onde poderíamos chegar O avanço foi histórico. Talvez, na história sempre seja assim. Algo do ponto de vista, que pode ser compreendido como um corte radical, social, com um conjunto de significantes, que tiveram que ser transpostos. Perspectivas conceituais tiveram que ser recompostas. Havia outras coisas a representar, a dar espaço, e a humanidade necessitava de novos significantes e de novos sentidos, uma nova linguagem, que passa a ser disputada mundialmente, milímetro por milímetro. E agora vamos assistir, passivamente à destruição do tecido institucional construído por décadas a fio? A passageirice de nossas vidas, é sempre chocante sinal de necessidade de transformações contínuas. É preciso não permitir que o tecido se esgarce demais.

E isso se faz com nossas vozes e ação inovadora.

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp


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