Opinião

Ideologia não é problema

Seria a hora de muito juízo, muita prudência e muita consciência ecológica


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Inacreditável que o mundo não se comova diante da maior ameaça que está no horizonte próximo. O aquecimento global, a extinção das florestas, a poluição generalizada, a redução da água doce, o envenenamento dos mares e a eliminação da vida.

A cada dia, vê-se a inclemência humana a produzir chagas que não se cicatrizarão. Na esfera macro, mas também na esfera micro. No macro, com governos incentivando a destruição do verde, "soltando a boiada" para atender ao agronegócio que não se sensibiliza com o ambiente. Dando recado a garimpeiros e a grileiros que o Estado é conivente com eles.

No âmbito micro, na conduta irresponsável de quem continua a cortar árvores sob argumento de que as folhas "sujam" o passeio, que dá trabalho varrê-las, cimentando todo espaço e sufocando o solo. Mas também daqueles que produzem a impressionante tonelagem de resíduos sólidos, eufemismo com o qual nos acostumamos a chamar o "lixo". Uma civilização do descarte, desperdiça o que é valioso, numa abastança própria a pobres ignorantes.

Não estamos no melhor momento da economia nacional. Seria a hora de muito juízo, muita prudência e muita consciência ecológica. Se o governo federal está insano, incumbe aos governos estaduais e municipais assumirem sua responsabilidade. Afinal, a federação se instituiu em três níveis: União, Estado-membro (e DF é uma subespécie de Estado) e municípios.

Cada prefeito deveria estimular sua cidadania a tentar reagir ao desvario. Propiciar uma educação ambiental consistente. Recompor todo espaço que foi dizimado e teve sua vegetação nativa expulsa. Restaurar os riachos que foram contaminados com dejetos, principalmente com a ligação clandestina de esgoto doméstico. Punir as indústrias que lançam substâncias químicas assassinas.

Ao município incumbe propiciar a educação ecológica da qual a União se descuida. Um dia o mundo vai acabar, mas o ser humano está precipitando a chegada do caos. Não é o planeta que vai deixar de existir. É a vida. E a mais frágil dentre todas as experiências vitais é a humana.

Enquanto isso, perde-se precioso tempo a alimentar debates estéreis, ofensas, injúrias, crueldade e deboche. As hostes se desafiam e batalham na internet, fazendo com que as redes sociais se tornem caudal imenso de aleivosias. Onde foi parar a cidadania cordial, não no sentido de Sérgio Buarque de Holanda, mas na compreensão vulgar de que o brasileiro é receptivo, sabe fazer amizades, é bem humorado?

A ideologia passou a residir na mente daqueles que se comunicam e abusam desse mercado livre em que as tecnologias da comunicação e informação disseminam uma confusa Babel, na qual ninguém se entende.

Apoucam os lúcidos, os que têm coragem de dizer que a política partidária não tem conseguido responder às urgências de uma sociedade sem perspectiva. Preste-se atenção ao que ocorre no Brasil: aquilo que era uma crise ética, a desaguar na crise moral, que se transformou numa torrente que dizimou a economia e as finanças, veio a ser complementada pela crise sanitária. Quantas centenas de milhares de mortos vão ser necessárias para mostrar que ideologia nada representa?

Falecido em 22 de fevereiro último aos 101 anos, o considerado "último beat", Lawrence Monsanto Ferlinghetti (nasceu em 24 de março de 1919) já dizia em 1991 que a situação da Terra era emergencial. Trinta anos depois, sua advertência é mais do que atual: "A questão ideológica não vai fazer nenhuma diferença daqui a alguns anos. Em 50 anos, digamos, a situação ecológica vai estar tão grave que conceitos como ideologia vão ter de sofrer uma mudança radical. Será necessário um novo conceito de ideologia que não vai ter nada a ver com o da velha terminologia e retórica marxistas". Mas também fascistas, nazistas, extremo-direitistas e outras, que vicejam em nossos quintais.

Quando partes do globo se tornarem inóspitas, desprovidas de vegetação e de água, quem segurará as hordas de famintos que procurarão países capazes de alimentá-los? Haverá sentido em se invocar soberania, outro conceito que a globalização já sepultou?

Ferlinghetti vaticinou que apenas uma forma de gestão humanitária, capaz de controlar os problemas ambientais do planeta, poria paradeiro à loucura. E completou: "mas isso não vai existir enquanto tivermos uma estrutura corporativista. Mesmo porque eles são imbecis demais para se salvarem de um eventual desastre ecológico". Será que ele tinha razão?

JOSÉ RENATO NALINI é Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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