Opinião

Lina e sua contribuição para a cultura popular

Premiada, Lina Bo Bardi reergue o reconhecimento de seu trabalho


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EDUARDO PEREIRA ARQUITETO
Crédito: divulgação

A bienal de Veneza, inaugurada em 1895, é a mais antiga instituição da manifestação no gênero da arte contemporânea e que, a partir do ano de 1987, passa a premiar arquitetos por manifestações, feitos e contribuições importantes para a arquitetura e, em sua decima sétima edição, tem como premiada póstuma, Lina Bo Bardi e reergue o reconhecimento de seu trabalho no Brasil.

No prêmio, a qualidade de seu trabalho é textualmente expressa e a justificativa também pois, como diz Hashim Sarkis, curador da edição de 2021, "se há uma arquiteta que incorpora de maneira mais adequada o tema da Biennale Architettura 2021, é Lina Bo Bardi. Sua carreira como designer, editora, curadora e ativista nos lembra o papel do arquiteto como organizador e, mais importante, como construtor de visões coletivas. Lina Bo Bardi também exemplifica a perseverança da arquiteta em tempos difíceis, sejam guerras, conflitos políticos ou imigração, e sua capacidade de permanecer criativa, generosa e otimista o tempo todo."

Adendo para o fato de que a arquiteta preferia ser chamada por "arquiteto", e justificava que na história não havia a palavra feminina.

Nossa relação foi próxima e tivemos, além da sua presença, a proposta do projeto para o Polytheama, sua intenção foi fazer um teatro para o povo, esse que, de fato, tinha essas características pois sua história comprovou esse uso de lugar de manifestações populares de Carnaval, festas, eleições de rainhas da uva etc.

Essa ideia popular foi pra frente, avançou, mas seu projeto teve alterações por diversas razões.

De qualquer maneira será a qualquer tempo recuperado, evidentemente, o interesse político que, hoje escasso, tem tomado força e precisa de algum ponto de crescimento e manifestação.

Lina veio ao Brasil com Pietro Maria Bardi, esse convocado por Assis Chateaubriand para fazer um importante museu na América. E assim foi feito e criado o MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. Na esteira dessa missão Bardi lança, em 1951, a revista Habitat que tem os fundamentos do fazer a arte uma matéria popular sobre o povo. Elevando ao maior nível possível o reconhecimento da cultura popular brasileira. Pietro e Lina mostram, nestas edições, nossa arquitetura, cultura popular, escultura, arte contemporânea e antiga.

Ainda na nossa estreita relação aparece a exposição "o design no Brasil história e realidade", em 1982, que, feita pelo MASP, foi encomendada para a inauguração do Sesc - Pompeia. Lina fez a expografia (conjunto de técnicas utilizadas para organizar e criar uma exposição) e a instalação dos objetos. A pesquisa e recrutamento dessas centenas de artefatos brasileiros vernaculares, que provocavam a ideia das origens populares do design, pudemos apreciar boa parte aqui em 1982, quando realizamos no museu de Jundiaí, o Solar do Barão, na época teve um recorde de presença, mais de 7000 pessoas.

Sobre seu trabalho, é impossível não lembrar do edifício do MASP, 1968, ícone paulistano e, além dessa sua arquitetura de início em São Paulo foi sua icônica casa de vidro, 1951, neste ano completando 70 anos, que, na data, foi o chamariz de venda de lotes no lançamento do Morumbi, e que hoje abriga o Instituto Pietro e Lina Bo Bardi.

Simultaneamente os seus contemporâneos colegas brasileiros já faziam também obras relevantes modernas, com ampla disseminação por todo o estado. Em Jundiaí, são emblemáticas casas como as do arquiteto Carlos Cascaldi, juntamente com seu irmão, engenheiro, Rubens Cascaldi, no jardim Ana Maria, localizada entre a avenida Renato Paupério com a avenida Jundiaí, ou as de Vasco Venchiarutti na rua Leonardo Cavalcanti, número 44.

Arquitetos brasileiros, já durante o século 20, tiveram importância na história moderna da arquitetura, tais como Lucio Costa e Niemayer que, com o edifício Gustavo Capanema, do Ministério da Educação do Rio, teve reconhecimento internacional e inaugurou o período moderno no país em 1932. A partir daí, tudo muda, se constrói esse enorme panorama de produção das cidades brasileiras. Com a qualidade que se vê em edifícios que se tornaram emblemáticos. Lina, com seu reconhecimento permanente, agora passa para essa notável galeria dos brasileiros mundialmente premiados.

EDUARDO CARLOS PEREIRA
é arquiteto e urbanista


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