Opinião

Com a palavra, o genocida

Uma pessoa em posição de poder que trabalha a serviço da morte é sim um genocida


ALEXANDRE MARTINS
FELIPE DOS SANTOS SCHADT ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

É fácil perceber como o discurso de ódio está sempre presente em suas declarações. Segundo definição do dicionário, genocídio é um extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade, grupo étnico, racial ou religioso e um genocida é uma pessoa em posição de poder que deliberadamente para que isso aconteça. Essa atuação pode ser direta, quando o genocida cria políticas de extermínio, por exemplo um ditador que manda seu exército matar todos os cidadãos de determinada etnia, como já vimos acontecer na história.

O genocida também pode atuar de maneira indireta, quando ele, podendo impedir a morte de um grupo de pessoas, decide intencionalmente não fazer nada. Mais, ao invés de tentar minimizar esse extermínio, o incentiva por meio de declarações violentas e cheias de paixão.

Direta ou indiretamente, uma pessoa em posição de poder que trabalha a serviço da morte de uma camada da população é sim um genocida. E uma pessoa assim se destaca pelo próprio discurso. É notório perceber em sua narrativa uma constante linha de raciocínio que tem como base principal o ódio. Mas o que um genocida diz? O que ele costuma falar? Qual o tipo de declaração que sai da boca de alguém assim? Resolvi listar para você. Com a palavra, o genocida:

"Temos de ser cruéis. Temos de recuperar a consciência tranquila para sermos cruéis";

"A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística";

"O erro da ditadura foi torturar e não matar";

"Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem";

"Morreram poucos. A polícia tinha que ter matado mil";

"Nós humanos não somos diferentes dos macacos, eles pisoteiam todos os invasores até que todos sejam eliminados";

"Eu sou favorável à tortura. Tu sabe disso";

"Qualquer aliança cujo propósito não é a intenção de iniciar uma guerra é sem sentido e inútil";

"Você não derrota um inimigo tirando sua coragem. Você o derrota tirando sua esperança";

"[O policial] entra, resolve o problema e, se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele tem que ser condecorado, e não processado";

"Não tenho que pedir perdão a ninguém";

"Praticamente limpamos os comunistas do país";

"Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre";

"Não se pode colocar todos no mesmo nível. A igualdade é anti-natural e anti-histórica";

"Isto não é uma ditadura, mas sim uma ditabranda";

"Sou a favor, sim, de uma ditadura";

"O poder político nasce do cano da espingarda";

"Ou vão para fora ou para cadeia, esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria";

"Nada melhor do que descobrir um inimigo, preparar a vingança e depois dormir tranquilo";

"As pessoas que votam não decidem nada!";

"Pelo voto não vai se mudar nada nesse país";

"Não esperem nossas ordens, apenas lutem contra o inimigo";

"Eu tenho a cara azeda, por isso talvez digam que eu sou um ditador";

"A política é uma guerra sem derramamento de sangue; a guerra uma política com derramamento de sangue";

"Quem não puder combater, que desista e deixe outros comandarem"

"Trate seu povo como trata a uma mulher";

"Há muitos que querem que eu morra, mas não estou nem se quer resfriado";

"Eu estou os vendo de cima, porque Deus me pôs aqui";

"Deus está do nosso lado. Foi por isso que derrotamos o inimigo";

"As grandes massas cairão mais facilmente numa grande mentira do que numa mentirinha";

"Que sorte para os ditadores que os homens não pensem".

Todas essas frases são verdadeiras. Todas elas foram proferidas por notórios genocidas que assombraram a história da humanidade com suas políticas de extermínio. Você leu frases de Adolf Hitler, Joseph Stálin, Saddam Hussein, Pinochet, Mao Tsé-Tung, Benito Mussolini e do presidente da república, Jair Messias Bolsonaro.

O que é intrigante é que se eu te pedir para diferenciar essas frases, vai ser uma tarefa difícil, pois todas seguem a mesma lógica. A lógica do ódio. Se eu te pedir para me apontar a quem pertence cada frase, você também terá muita dificuldade se não recorrer à internet, mostrando mais uma vez o padrão do discurso. Agora, nada disso assusta mais quando você, após ler cada uma delas, não conseguir dizer com certeza quais não foram ditas pelo presidente da república.

E isso, diz muita coisa.

Conhecimento é Conquista.

FELIPE SCHADT é jornalista, professor e cientista da comunicação pela USP


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