Opinião

Caminhos possíveis

O presidente americano, Joe Biden, começa o seu mandato com o pé direito


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MESSIAS MERCADANTE DIRETOR ADMINISTRATIVO DA CAMARA MUNICIPAL ECONOMISTA
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Há uma premissa de que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o mundo.

O presidente americano, Joe Biden, começa o seu mandato com o "pé direito". O pacote de US$ 1,9 trilhão proporcionará estimular o consumo das famílias, com a ajuda de US$ 1.400,00 por um bom período, mais US$ 300,00 dólares semanais aos mais desamparados; US$ 350 bilhões serão direcionados para investimentos; elevadas somas de recursos para a recuperação de pequenas e médias empresas, além de ajuda a estados e municípios. Esse conjunto de ações, que se somarão aos US$ 900 bilhões de dezembro de 2020, portanto, quase US$ 3 trilhões, permitirão ao país crescer neste ano aproximadamente 7% - (percentual que, excepcionalmente pode ultrapassar o crescimento da China), e gerar cerca de 5 milhões de empregos.

Com tanta liquidez injetada na economia, como fica a expectativa da inflação? - Alguns fatos relevantes indicam a possibilidade de que possam amenizar o ímpeto inflacionário: A economia americana está saindo de uma recessão acentuada, como também a Europa e o Japão, além dos países em desenvolvimento, como o Brasil, portanto há, efetivamente, uma "capacidade de produção ociosa" não somente pelos dez milhões de desempregados, mas também pela disponibilidade para uso dos demais fatores de produção - capital e recursos naturais, cujas ocupações não serão inflacionárias.

Diante da grande depressão de 1929/30, as ideias de John Maynard Keynes, desenvolvidas na Teoria Geral sobre o emprego, juros e moeda preconizavam que os investimentos em infraestrutura, pelo Estado, mesmo provocando dívidas, para iniciar um ciclo multiplicador de desenvolvimento econômico, permitiram a saída da grande depressão. Também Keynes abordou a questão da "armadilha da liquidez", que ocorre quando a taxa de juros cai a zero (está negativa nos Estados Unidos, Europa, Japão e no Brasil), a política monetária expansionista é incapaz de estimular a demanda agregada ao ponto de provocar inflação.

No caso do Brasil temos uma forte influência dos preços internacionais de commodities, (como minérios, petróleo, alimentos, dos quais somos um dos maiores produtores/exportadores do mundo) e, também da variação da taxa de câmbio, com acentuada desvalorização cambial. No custo de oportunidade, quando os preços sobem no exterior, sobem também no Brasil e o câmbio corrobora.

Voltando aos Estados Unidos, mesmo com a significativa ajuda mensal, diante da pandemia da covid-19, o consumidor americano deverá ser prudente e não vai se arriscar no consumo em elevada escala.

Todas essas abordagens e considerações acima, nos leva a refletir sobre a economia brasileira, em seus ciclos de estagnações, recessões e baixos crescimentos.

Não investimos porque não temos poupança e recursos e não crescemos porque não investimos; não reduzimos a pobreza e não melhoramos a distribuição da renda, porque não crescemos, não geramos empregos e renda. Temos uma espécie de rosca sem fim, de causa e efeito.

Somos um país rico em mão de obra disponível, em recursos naturais, como água, terras férteis, minérios, petróleo; nos faltam os "atributos que precisamos construir" - poupança e capital, para direcioná-los para investimentos que nos faltam: infraestrutura, saneamento básico, educação de qualidade e saúde pública sustentável.

De certa forma, a operação de um grande número de multinacionais no País e os investimentos externos na Formação Bruta de Capital Fixo, que se acumula anualmente e que caminha lado a lado com os investimentos internos, suprimem parte dessa poupança e do capital que nos faltam. As privatizações das empresas estatais e as concessões nos setores de infraestrutura e saneamento básico ao setor privado, inclusive do exterior, vão alicerçando as bases para um patamar superior de "atributos construídos", que se somarão conjuntamente com os "atributos naturais" que temos, para que o Brasil reencontre o melhor caminho de um desenvolvimento econômico sustentável e, possivelmente inclusivo.

MESSIAS MERCADANTE DE CASTRO é professor de economia da Unianchieta e consultor de empresas


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