Opinião

Filmes de super-herói

No independente, há um cardápio farto no Mubi e no Belas Artes


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA RAFAEL AMARAL'''''
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Muita gente ainda não se deu conta da importância do audiovisual nesses tempos de pandemia. Presa em casa, boa parte das pessoas recorre a filmes, séries ou novelas. Há boas opções nos serviços de streaming. "Mank", de David Fincher, está na Netflix desde o ano passado. "O Som do Silêncio" entrou despercebido e pode ser visto no catálogo da Amazon.

Falo dos filmes do Oscar, mas há muitas outras opções: para quem gosta do "independente" ou "fora do circuito", há um cardápio farto no Mubi e no Belas Artes à la Carte. O excesso de opções não raro confunde; temos tanto à mão que terminamos desnorteados, reclamando sempre do tempo que falta - enquanto a peste come solta do lado de fora.

Assunto recente entre cinéfilos é a versão remontada e mais longa de "Liga da Justiça", lançada diretamente no streaming. Os fãs de histórias em quadrinhos e filmes de super-heróis foram ao delírio. Os dados surpreendem: são quatro horas com Batman, Mulher-Maravilha, Super-Homem e mais alguns heróis, vilões e efeitos especiais. Dá-lhe CGI.

A euforia é tamanha que o filme figura desde já no top 250 de todos os tempos do site IMDb (Internet Movie Database), à frente de obras-primas como "Touro Indomável" e "Rashomon". A lista, baseada em notas do público, soa como heresia.

Rankings como esse dizem quase nada. O que assistimos é, de novo, um fenômeno, um arrasa-quarteirão da era do streaming e da pirataria. Um buzz, sem dúvida. E, como todos os barulhos que fazem a loucura da mesma garotada que gosta de games e funkos, algo destinado a passar, ser esquecido, sepultado pela próxima moda.

Ou alguém acha que, 30 ou 40 anos mais tarde, "Liga da Justiça" será referência entre críticos e estudiosos como são, hoje, "O Poderoso Chefão" e "Alien, o Oitavo Passageiro"? Sei que a pergunta é golpe baixo. Sei que críticos e estudiosos tendem a torcer o nariz para filmes de super-herói. Sei que alguns fãs de quadrinhos continuarão assistindo ao épico pop.

Que fique claro: o problema não é o filme de super-herói. Reconheço que há bons filmes nesse filão. "Batman - o Cavaleiro das Trevas" empolga-me. O primeiro "Sin City" é bem interessante. O "Superman" de 1978 é uma delícia. Diverti-me muito vendo "Soldado Invernal". No entanto, mesmo os melhores desse subgênero não escapam à regra número um dos enlatados hollywoodianos: minimizar riscos, maximizar facilidades.

Hollywood já foi mais inteligente. Ou foi o público que mudou? Conforme os riscos aumentaram ao longo das décadas, com a concorrência de outras mídias e altos custos de produção, o que inclui uma avalanche de dinheiro em marketing, casar roteiros com mensagens ambíguas, narrativas adultas e cineastas autorais com o catálogo de grandes orçamentos de um estúdio ou produtora é cada vez mais raro.

Há quem diga que os melhores roteiros, hoje, estão na televisão. Antes, o popular era o crème de la crème dos estúdios: produções premiadas como "Spartacus" e "A Noviça Rebelde" arrastaram multidões aos cinemas. O popular, hoje, está destinado ao chamado "espectador médio"; são filmes infantilizados, sem ousadia, muitos deles calcados na comédia de baixa qualidade. Está na moda falar besteiras, socar os vilões e salvar o mundo - tudo ao mesmo tempo.

Tive real noção da mistureba quando enfrentei, na tela grande, "Thor: Ragnarok". Poucas vezes vi tanta idiotia sendo posta à prova, à base de alguns milhões de dólares. Enquanto o público (sala cheia) caía na gargalhada, perguntava-me por que aquela orgia de cores, chifres e brucutus digitalizados provocava tanta alegria na garotada e em seus pais.

Dá até para ficar deprimido em uma sessão assim. Seria eu o errado, incapaz de perceber o que tornava aquilo tão engraçado, tão sedutor ao restante do público? Alguém vai dizer: é apenas diversão. Insistente, retruco: não pode ser apenas diversão.

Filmes como "Thor: Ragnarok" - mas não só ele, não só os de super-herói - oferecem um vale-tudo que se passa por ousado e escancara suas bobagens. É apenas uma montanha-russa, um quebra-quebra interminável, momento em que o cinema abre mão do bom texto e da boa direção para ser o que as crianças mais gostam: um parque de diversão.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista. Escreve em palavrasdecinema.com


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