Opinião

Entre uvas e vinhos: a boa terra

Curados da tristeza da separação, passaram a cultivar muitas uvas de mesa


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COLUNISTAS GUARACI ALVARENGA
Crédito: divulgação

A história se passou no norte da Itália, na região de Vêneto, atingidos pela implacável guerra, empobrecida, os lavradores italianos acabaram forçados a abandonar suas terras e foram obrigados a buscar outra região para viver e trabalhar. Foram compelidos a imigrarem a terras distantes. Carregaram a dor causada pela separação da terra natal, mas suas malas vazias levavam toda a esperança de encontrar um novo lar. Parte desta gente encontrou nestas terras de Petronilha aquilo que foi sempre a razão de seu viver. Conheciam as agruras da guerra e não mais queriam depender de outros para sobreviverem. Sentiram os pés descalços na boa terra úmida, empunharam uma enxada e, com muito suor nos rostos, tinham sua horta, pés de frutas, galinheiro, criação de porcos. Diante deles nascia uma pequena Itália.

Curados da tristeza da separação, seduzidos pela nova paixão, passaram a cultivar muitas uvas de mesa, a chamada Niágara, mais tarde a tipo Itália, a Isabel, entre outras. A terra, a boa terra, renovou suas energias e amenizou as marcas da saudade. Surgia aos olhos do Brasil a Terra da Uva. Seu vinhos artesanais passaram a ganhar espaço entre os exigentes apreciadores. O plantio de uvas europeias, próprias para se produzir vinho, segue com bastante êxito. Produtores como Belesso, Cereser, Passarin são bem conhecidos no mercado nacional. As excelentes adegas florescem em todos os cantos. Beraldo di Cale, Brunholi, Do Português, Fontebasso, Fratelli di Boschini, Galvão, Juca Galvão, Marquesin, Martins, Don Martê, Maziero, Mingotti, Nadrini, Oliveira, Santa Cecilia, Sibinel, Vendramim, Villaggio Bruneli, Casa de Pizzo, Castanho, Sacccomani.

Esmagando suas próprias uvas, estes produtores festejam a elaboração de bons vinhos, que chegam ao mercado com um custo-benefício acentuado, aos de menor poder aquisitivo. Conta meu amigo Adilson Pilot, um de nossos maiores sommeliers, alguns sobrenomes tutti oriundi deste sucesso. Seu avô paterno Pilot nasceu em Modena. Os avós maternos dos Baialuna vieram de Padova. Martinelli origem de Lucca na Toscana, Don Stefano Contursi, da tradicional família Rocco Contursi, da região de Toscana. Seguem os Biagi, Amadi, Giffoni, Bonanome, Zanatta, Dovichi, Colucci, Gragnani, Stella, Terzoni, De Luca, Borin, Del Porto, Bellini, Orsi, Pirana, Tonolii, Luchini, Panzan, Gazolla. De Marchi, Benassi. Acrescenta o amigo algumas curiosidades: quando recém-nascido, sua mãe o levava na casa dos avós na Ponte São João. Seu avô então molhava a chupeta no vinho e colocava em sua boca, chorava porque queria mais!!!. Todo almoço o velho colocava dois copos de vinhos sobre a mesa: um era para pochar o pão, o outro bebia. A histórica estaçãozinha da Paulista na Vila Graff foi desembarque das barricas de vinhos do Sul, que vinham de trem, que ele comprava, um carroceiro levava as barricas, que depois eram engarrafados para a venda.

O vinho Chapinha, criado pela família Gragnani, tem este nome porque a tampa da garrafa era como a da cerveja, uma chapinha. Tenho comigo um velho conto italiano. Produtor dos melhores vinhos da região guardava seu segredo a sete chaves. As vinícolas vizinhas, produtores de outras regiões insistiam em descobrir e nada conseguiam. Dizia-se que só revelaria o segredo quando sentisse próximo de sua morte. Quando chegou este dia, mandou chamar o filho mais velho. No seu escuro leito de morte, mandou seu filho se aproximar de seus lábios e sussurrando ao seu ouvido, contou o que ocultava do seu conhecimento, passando para a próxima geração: o segredo do bom vinho é a UVA.

Se quiserem conhecer uma pequena Itália, incrustrada nesta boa terra, peguem o rumo da Rota do Vinho. Paisagens magníficas, campos verdejantes e floridos, belas vinícolas, culinária invejada, bairros bucólicos. Caxambu, Colônia, Toca, Roseira, Terra Nova, Traviú. A beleza destes lugares parece ter sido roubada da velha Toscana. Ao final deste encantador passeio, quando a serena noite se aproximar e a luz do sol for descansar atrás dos morros preservados, segure uma taça de vinho e brinde ao que temos de melhor: a Vida.

GUARACI ALVARENGA é advogado


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