Opinião

Philia ou a amizade em tempos de guerra

Philia se refere a toda relação de um sujeito com um outro, que busque o Bem do outro


ALEXANDRE MARTINS
ANA FOSSEN_ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A palavra Philia é grega, segundo consta apareceu pela primeira vez na obra Ética a Nicômaco de Aristóteles, filósofo grego cujos ensinamentos influenciaram religiões, escolas filosóficas e a vida cotidiana de todos nós. O termo é traduzido geralmente como Amizade, porém na própria obra de Aristóteles pode-se vê-lo empregado com o significado de amor, de amizade para uma vida inteira, também, poderia ser utilizado para as amizades políticas, para as relações entre cidadãos de outras cidades, para companheiros de armas ou de viagens, para a relação de pessoas de um mesmo grupo religioso, portanto, para vários tipos de relacionamento que envolvam um sujeito e um outro. Na interpretação aristotélica Philia se refere a toda relação de um sujeito com um outro, que busque o Bem do outro, ou seja, há um mais além do simples gostar, da pura afinidade de interesses. Parece que Aristóteles nos indica que Philia envolve amor, bem querer e ética.

Em Retórica, outra obra deste mesmo filósofo, o tema é retomado, frisando que na definição do que se indica como Philia há um movimento, um sentido do sujeito ao outro. Todo sujeito acometido do sentimento de Philia, se é que podemos chamar tal condição de sentimento, deveria querer para outrem -o amigo, o amante, o coletivo - o que se deseja de bom numa vida, ainda que seja relativa a ideia do que pode ser bom para cada sujeito.

Isto posto, e sabendo que esta é uma exposição muito resumida da ideia aristotélica, poderíamos nos questionar como estamos nos relacionando com as outras pessoas. Que tipo de amizade estamos oferecendo ao outro? Pensamos na troca que nos interessa ou no que é bom para o outro? Ou no que seria bom para ambos?

A resposta parece ser delicada, na medida em que, toda nossa cultura anda a passos largos para valorizar o "eu". O Bom é o que é melhor para mim; o certo é o que me parece certo; a justiça se aplica aos meus interesses. Essas são pérolas da atualidade do que chamamos amizade ou até amor. As discussões políticas deixaram esse tema muito em evidência, as pessoas não necessariamente brigaram por suas ideologias políticas, mas sim, porque tinham a necessidade de ter razão, de fortificar suas ideias dentro do seu "eu". Ter razão, ser seguido em seus ideais, estrutura a suposição de um "eu" forte e vigoroso, para maquiar a ignorância, a insegurança e uma dificuldade gigantesca de suportar as frustrações da realidade. Quantas pessoas, caros leitores, se pode conhecer, nos tempos atuais, com essas características? Infelizmente, muitas.

A pandemia nos trouxe muitas coisas ruins, na verdade, mortíferas. Não obstante, trouxe consigo uma oportunidade ímpar, poder olhar o outro em suas necessidades e não no módulo narcísico onde eu avalio o que o outro necessita ou deseja a partir do que "eu" julgo ser importante. Durante este ano de horrores e temores, vi pessoas oferecendo cestas básicas e ouvirem a contrapartida agradecida pedindo um emprego. Vi pessoas oferecerem dinheiro para quem somente queria ser escutado e consolado. Alguns ofereceram orações para quem gostaria de ter visto atitudes. Fui testemunha de agressões fortuitas para quem só precisava de um conselho para andar nos trilhos. Esse efeito narcísico que nossa cultura insiste em cultivar através de uma tortuosa interpretação do "faça-se a si mesmo", gerou criaturas surdas às demandas e dificuldades alheias. Pensar se tornou um ato mais difícil que julgar.

Enquanto o mundo acaba lá fora, mais especificamente nos hospitais e nas geladeiras vazias, pare de pensar exclusivamente em como construir o seu "eu", pare de reclamar que o outro é diferente, escute, dê atenção, observe o mundo ao seu redor por um instante. Seja amigo de alguém à moda aristotélica, isso o ajudará inclusive a encarar melhor a realidade, pois afinal, um "eu" não vai a lugar nenhum sozinho que não seja para a própria cova.

ANA CLÁUDIA FOSSEN é psicóloga e psicanalista, graduada em Psicologia pela USP e pós-graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade Complutense de Madri-Espanha


Notícias relevantes: