Opinião

As duas palavras terríveis

Há quarenta anos a Ciência tem nos alertado para o desequilíbrio climático


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Miguel Haddad
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A maioria de nós sequer imaginou que o futuro nos reservava essa vida de agruras que vivemos hoje, sofrendo pesadas baixas, como se estivéssemos em meio a uma guerra. Digo "a maioria de nós" porque alguns, na verdade muitos, tentaram nos avisar acerca do que estava por vir.

É impressionante constatar, agora, como foram precisos. Em 2015, em uma palestra, Bill Gates, em sintonia com o que dizia a Ciência, fez o seguinte alerta: "atualmente, o maior risco de uma catástrofe global está em um vírus altamente infeccioso, não numa guerra".

Há quarenta anos, pelo menos, a Ciência tem nos alertado para as consequências do desequilíbrio climático, da devastação do meio ambiente e da invasão desenfreada de ecossistemas que podem abrigar vírus e bactérias para os quais não temos imunidade.

Todavia, não foram poucos, ao longo desses anos, aqueles que procuraram negar o que dizia a Ciência. Mesmo agora, ante a realidade brutal da epidemia, essa atitude irracional congrega uma horda fanatizada - não há outra forma de caracterizá-los senão como fanáticos, divorciados da razão - que recusa os dados da pesquisa científica.

Nosso País, onde o Negacionismo viceja, não por outra razão tem batido sucessivos recordes mundiais em número de vítimas. Vivemos uma crise sanitária sem precedentes. Diariamente temos de conviver com a dor de assistir a morte de familiares em corredores de hospitais na fila por uma vaga numa UTI.

A solução final para essa situação é, evidentemente, a vacinação em massa. O presidente recém-eleito dos Estados Unidos inverteu, em curto espaço de tempo, a curva ascendente de vítimas da covid-19 em seu país vacinando milhões de pessoas por dia. O problema é que postergamos - o que é incompreensível e injustificável - o início da aquisição de imunizantes. Mesmo se a partir de agora a necessidade de aquisição de vacinas for levada a sério, teremos de padecer por meses e meses até a vacinação impedir a disseminação descontrolada do vírus.

O que fazer? O exemplo de Araraquara, entre tantos outros, mostra cabalmente que o chamado lockdown, o confinamento severo, funciona. A questão não é se deve ou não ser feito, mas como viabilizá-lo. Para isso é preciso, antes de tudo, ficar claro que as medidas a serem tomadas não devem seguir as normas que valem para uma economia normal. Afinal, nossa situação pode ser tudo, menos normal. Precisamos entrar numa economia de guerra.

Pelo menos dois setores devem ser especialmente atendidos: os micros, pequenos e médios empresários e as pessoas que vivem na informalidade, cujo sustento depende do trabalho diário e simplesmente não podem colocar comida na mesa se ficarem fechados em suas moradias. Para funcionar, o lockdown teria de vir acompanhado de ações mitigadoras: créditos especiais para esses negócios e a distribuição de alimentos, ou vale-refeição, que garantisse algum poder de compra para aqueles que vivem na informalidade, ao menos pelo tempo necessário para debelar o vírus e evitar o caos.

A tentativa de estabelecer uma oposição entre o confinamento e a economia é falsa. Se não estancarmos com urgência a disseminação do vírus, a economia será abalada de forma igual.

Finalmente, mas não por último em termos de importância, temos de condenar de forma dura as aglomerações e estimular o uso da máscara, utilizando, para isso, intensamente, os meios de comunicação. É importante, nesse convencimento, que as autoridades se tornem modelo no rigor do seu uso.

Nossa esperança agora resta nas mãos do novo ministro da Saúde, que terá a responsabilidade de coordenar esse esforço, e nos sinais de mudança na condução nacional do enfrentamento da crise, que esperamos seja para valer, com o recém-criado Comitê Anti-Covid, junto aos poderes Legislativo, governadores, ministros de Estado e outras autoridades.

Não há tempo a perder. Temos todos de apoiar essa iniciativa e exigir celeridade na tomada de decisões. Caso contrário, teremos de ouvir, no dizer de Churchill, as duas palavras terríveis: "tarde demais".

MIGUEL HADDAD
é ex-deputado federal


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