Opinião

Já vai tarde!

As constantes brigas custaram caro, com atraso nos insumos da Coronavac


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SISTEMA PENITENCIARIO FABIO JACYNTHO SORGE
Crédito: divulgação

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, pediu demissão do cargo nesta segunda-feira (29/3). Já vai tarde!

Araújo, que é diplomata de carreira, foi anunciado como chanceler durante a transição de governo, em novembro de 2018 e assumiu o cargo no início da gestão de Jair Bolsonaro. Ele ingressou no Itamaraty em 1991 e chegou ao topo da hierarquia diplomática em junho de 2018, quando foi promovido a embaixador.

Sua passagem pelo Ministério das Relações Exteriores ficará marcada como uma das piores, senão a pior da história. A condução da política externa sob seu comando se baseou na submissão completa aos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, em um alinhamento automático às posições estadunidenses. O Brasil entrou no combate ao globalismo e desnecessariamente, se envolveu em diversas polêmicas com a China, um importante parceiro comercial.

A eleição do Joe Biden para a presidência dos EUA fez com que o chanceler perdesse a referência, já que o Brasil embarcou na fantasiosa tese da fraude eleitoral de Donald Trump, o que faz com que Bolsonaro levasse mais de um mês para reconhecer o resultado daquele pleito. E essa postura, com o apoio do ministro, teve seu preço, já que fez com que a relação com o novo governo estadunidense ficasse prejudicada.

Na sua total falta de respeito aos interesses brasileiros, o ministro ainda comprou a briga de Eduardo Bolsonaro com o governo chinês, quando o filho do presidente ofendeu o país em rede social e Araújo correu para defendê-lo, ao dizer que a reação chinesa havia sido desproporcional.

No mais, a condução da política externa brasileira ao longo da pandemia marcou o ápice de descaso com a dor e o sofrimento da população, piorando uma situação que, por si só, já é bem difícil.

Por sua condução desastrosa no Ministério das Relações Exteriores, o chanceler dificultou a obtenção de vacinas e insumos. Em relação à China, as constantes brigas e conflitos custaram caro, com enormes dificuldades criadas para a liberação dos insumos da Coronavac, até agora nossa principal vacina. Houve ainda a opção por não trabalhar com outros países para a obtenção de mais doses, em oposição ao globalismo.

Araújo fez ainda o favor de votar contra a quebra de patentes para a produção em maior escala da vacina, apoiada pela Índia, o que também azedou a relação com este país. Aliás, somente para os países ricos e para a indústria farmacêutica essa medida seria ruim, mas não para o Brasil, que está em desenvolvimento e ainda conta com uma população imensa para vacinar.

Na última semana, o chanceler foi chamado ao Congresso para explicar a política externa adotada ao longo da pandemia e ouviu de diversos senadores o pedido para se demitir. Se comportou com arrogância e prepotência, com total falta de noção da realidade que o cerca. Ainda foi acompanhado pelo assessor para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, que não contente com a gravidade da situação, fez um sinal em referência aos supremacistas brancos. É tudo que o Brasil não precisa.

Depois disso, com a sutileza de um elefante em uma loja de cristais, acusou pelas redes sociais a senadora Katia Abreu, de fazer lobby para rede 5G chinesa, durante um almoço com ele no Itamaraty. A senadora, em resposta, disse que apenas defendeu que não haja discriminação contra a China no leilão 5G e chamou o ministro de "marginal". Evidentemente, se tratou de uma cortina de fumaça do chanceler, para desviar o foco sobre a atuação do Ministério das Relações Exteriores na pandemia.

É incrível que alguém com tão pouco talento diplomático, tolerância e respeito ao próximo, tenha sido o ministro das Relações Exteriores por mais de dois anos. Por onde passou, Ernesto Araújo deixou um rastro de destruição, conflitos e ódio. Promoveu diversos danos à imagem internacional do Brasil, fazendo com que o país seja um pária internacional.

Felizmente, vai embora e já vai tarde. A política externa deve ser conduzida com frieza e tranquilidade, pensando sempre no interesse do país como um todo, sem a influência de ideologias e preferências pessoais. Algo que o Itamaraty costumava fazer muito bem. Todavia, como muda o ministro, mas fica o presidente, é difícil imaginar que teremos alguma mudança efetiva antes de 2022. Até lá, ficaremos cada vez mais isolados, em razão de um radicalismo sem qualquer sentido.

FÁBIO JACINTHO SORGE é defensor público do estado de São Paulo e coordenador da Regional de Jundiaí


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