Opinião

Gestações, filhos e pandemia

As mulheres estão vivendo situações desnorteadoras ao dar a luz


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MARGARETE ARILHA NOVA
Crédito: DIVULGAÇÃO

Décadas de promoção de políticas públicas voltadas para a atenção integral a saúde das mulheres, uma marca da ação do movimento feminista e de saúde no Brasil, resultaram, sem dúvida alguma, no incremento da qualidade do pré-natal em todo o país, incremento na qualidade da atenção ao parto, com melhoria nos níveis da capacitação dos profissionais de saúde para tanto, melhoria nos padrões de ensino das escolas médicas, redução dos níveis de mortalidade materna, melhoria na instalação e atuação dos comitês de mortalidade materna no país, incremento no acesso nacional aos contraceptivos reconhecidos cientificamente, inclusive contracepção de emergência e acesso as iniciativas de aborto legal, inclusive, em algumas cidades do país. Em questão os direitos reprodutivos que dizem respeito ao direito das mulheres de terem ou não terem filhos de como e quando tê-los e com quem, assim como do direito de poderem ter acesso as informações e aos meios para executarem tais direitos.

Recordamos que, no Brasil, a taxa de fecundidade total, ou seja, numero médio de filhos por mulher, caiu de 6.3 em 1960 a 1.9 em 2010. Entre 1980 e 1990, tais taxas decresceram abruptamente de 4.4 filhos por mulher a 2.7 filhos por mulher. E seguem decrescendo, chegando em alguns lugares do Brasil, a taxa de 1.7 filhos por mulher, em grandes centros urbanos, como é o caso da cidade de São Paulo. As taxas caíram porque com mais educação, e com mais acesso a informação e métodos, e políticas públicas adequadas, as taxas caem naturalmente. Mas mesmo assim, estamos sendo completamente arrastados para cenários muito difíceis em função da pandemia vivida. Como já se sabe, toda a assistência a saúde está sendo completamente afetada, e não é diferente a situação de atenção a gestação, partos e puerpérios em que mulheres, famílias e bebês podem ter experiências desastrosas do ponto de vista físico e psíquico, e resultarem em experiências que podem deixar marcas impagáveis.

Não obstante, todos esses direitos estão sendo deixados de lado pelas terríveis situações que muitas mulheres, especialmente as mais vulneráveis, estão vivendo no cenário da pandemia. Sem consultas médicas de pré-natal - reduzidas de maneira significativa porque o sistema não as absorve, mas também porque as mulheres não chegam ao sistema, ou por medo ou por desinformação - as mulheres estão vivendo situações desnorteadoras no momento de dar a luz, enfrentando seus medos normais acrescidos dos receios associados ao coronavírus. Relatos significativos chegam desde Manaus, através da Gênero e Numero, por exemplo, que registra que 33% dos bebês que nasceram não tiveram acompanhamento pré-natal, quebrando tendências dos últimos cinco anos, ou tiveram um numero menor de consultas no pré-natal. Observa-se uma expansão de procura de empresas por partos domiciliares, o que pode ser interessante, mas ao mesmo tempo pode colocar em risco gestações que não cumprem os pré-requisitos adequados, ou seja, não haver contraindicações para uma experiências desse tipo que necessitaria de profissionais devidamente preparados, e a referência hospitalar preparada para o caso de uma emergência se apresentar. Muitas dificuldades como a impossibilidade da presença do acompanhante no momento do parto, como prevê a lei, ampliação de queixas de violência obstétrica, e a transformação de muitas maternidades em referência para o atendimento da covid-19. Esses têm sido alguns dos problemas gritantes que devem ser vistos e reconhecidos pela opinião pública. Protocolos de segurança, riscos de contaminação, indefinições e imprevisibilidade com a covid-19, tem gerado muito desconforto psíquico, muito medo.

Direito a nascer e direito a contracepção. Claros e implacáveis. Direitos individuais e sociais, conquista social a ser respeitada e cumprida por todos. Contingências existem, e são compreensíveis. No entanto, o momento da gestação e do nascimento e da contracepção devem ser especialmente destacados, sob pena de construirmos um país ainda mais pleno de duras sequelas para o futuro. Nos planos federal, estadual e municipal, quem está cuidando disso?

MARGARETH ARILHA é psicanalista e pesquisadora do Nepo (Núcleo de Estudos em População Elza Berquo) da Unicamp


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