Opinião

A falência do conceito preço

O preço não representa o impacto da troca de valores


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA ELISA CARLOS
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

O conceito preço não é capaz de expressar, muito menos de absorver economicamente, o impacto das nossas escolhas de consumo. O jeito que aprendemos a formular os preços, o conceito que significa e sua base téorica precisam ser revistos. De novo, não sou eu dizendo, só estou replicando, de uma forma bem rudimentar, alguns tantos pensadores. O conceito de preço como aprendemos na faculdade, ou na vida, não é suficiente para internalizar as externalidades geradas em uma relação transacional que não dá mais para ser pensada como entre duas pessoas. Para acreditarmos que o preço é um conceito satisfatório, precisamos reduzir a relação comercial para uma escala ilusória fechada entre o comprador e o vendedor. Só que a gente já entendeu que o impacto da nossa escolha, principalmente, de consumo invade o espaço social do outro, impacta meu eu do futuro, o sistema de saúde, o planeta todo.

Teoricamente, preço é o número mais alto que representa o valor que o fornecedor consegue captar do cliente. Um cliente paga por um bem quando a sensação de valor obtido pelo produto é maior que o dinheiro gasto naquele momento. Quando a gente paga mais do que gostaria, é porque acreditamos que a necessidade desse produto é maior do que o desejo de reter o nosso dinheiro conosco para outro uso: demanda inelástica. Um exemplo é remédio, quanto vale nossa vida? Muito mais do que qualquer remédio. Quantas histórias você já não ouviu de gente que gastou todas as reservas para tentar salvar alguém? Isso é demanda inelástica. Demanda elástica é quando a compra dança junto com o preço. Aumentou? Paro de comprar. Diminuiu? Compro mais.

Embora Daniel Kahneman (psicólogo, ganhador do prêmio Nobel de economia em 2011) já tenha refutado e sugerido a revisão da teoria econômica, ao formular preços em políticas macroeconômicas, ou estudos de viabilidade, continuamos usando como base em nossas projeções, o comportamento do homo economicus (criado no início do século XX pelo economista e cientista político John Stuart Mill). Essa espécie à qual J.S. Mill se referia é dotada da racionalidade perfeita e, que entre outras tantas capacidades, sempre escolhe a cesta de bens com o menor preço. Te provoco a pensar como você escolhe seu perfume, seu carro, suas roupas, a comida que seu filho come, ou a escola que ele estuda.

Voltando para a vida real, toda transação comercial gera externalidades. Sabe quando você compra comida pelo Ifood? Paga baratinho pelo frete, sua comida chega na sua casa mais ou menos quente, legal. Transação comercial entre cliente e fornecedor realizada, aceita e paga com sucesso. Mas vamos pensar um pouco mais a fundo, onde esse motoboy fica entre uma corrida e outra? Na casa de um amigo uns 15 motoboys decidiram que ali seria um ótimo ponto de espera e não ligam para a sujeira que deixam. O Ifood não se preocupou em montar esses espaços para os motoboys. Isso é a externalidade negativa, quando um terceiro paga o excedente que não foi computado na transação comercial entre cliente e fornecedor.

Por outro lado, quando um agricultor opta pela técnica biodinâmica ou orgânica de produção ele gera externalidades positivas. O quanto a biota do solo enriquece, o quanto a qualidade nutricional do alimento é preservada, o respeito que ele trata os animais, os fornecedores, o ambiente, a água limpa que devolve são valores que também não tem como serem internalizados no preço. Da mesma forma que os R$ 6,00 que você paga de frete para o Ifood, os R$ 5,00 que você paga numa alface orgânica direto do produtor, não fecham a conta.

O preço é uma instituição informal que não representa de fato o impacto da troca de valores, ao contrário, a forma que aprendemos a calculá-los expressa uma postura antiética com aqueles que não estão envolvidos nessa transação. Mas tem bastante gente estudando e colocando em prática novas teorias econômicas e com o tempo vou escrever sobre cada uma delas: Sacred Economy do ecologista e escritor Charles Eisenstein; Economia Viva do criador da antroposofia Rudolf Steiner; Gift Economy do Nipun Mehta (consultor do ex presidente dos EUA Barack Obama); Capitalismo Consciente proposto pelo prof. da Babson College Raj Sisodia, a proposta do Novo manifesto capitalista do Umair Hughes (colunista da Harvard Business Review), ou ainda a possibilidade de introjetarmos a contabilidade ambiental nos nossos cálculos.

ELISA CARLOS. Em constante atualização, é empreendedora, engenheira, cozinheira, mãe Waldorf da Nina e da Gabi


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