Opinião

"Não te amei de brincadeira"

Só tem sentido a nossa vida se tiver conformada com a Cruz de Cristo


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MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE (NOVA)
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Em sua homilia do Domingo de Ramos, o padre Márcio Felipe, cura da Catedral, convidou-nos a entrar em Jerusalém com o Cristo. Lembrei-me de uma frase de Santa Ângela de Foligno (1248-1309) como resposta do Senhor às suas preces: "Não te amei de brincadeira".

Introduzir-se em Jerusalém, nesta semana, é contemplar o Crucificado, mas não apenas espiá-lO e sim seguir com Ele à casa de Lázaro, onde Maria ungiu os Seus pés com perfume de Nardo e os enxugou com seus cabelos. Ouvir que um deles O trairia. E nós, jamais O traímos? É ser convidado a lavar os pés uns dos outros. Fazemos isso para os sofridos e os inimigos que passam por nós? É testemunhar o que o oficial do exército proclamou: "Na verdade este homem era filho de Deus". Somos suas testemunhas? E, no domingo, ter a coragem de atravessar a madrugada e se encontrar com o Anjo que repete, como a Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago e Salomé (cf. Marcos 16, 1-7): "Não vos assusteis! Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. (...) Vede o lugar onde o puseram. Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele irá à vossa frente, na Galileia. Lá vós o vereis, como ele mesmo tinha dito".

Estamos em um tempo de experiência de cruz, principalmente pela covid-19 e suas consequências. Quanto impotência diante de um ser invisível, medos acumulados, dores do adeus - inúmeras vezes com a impossibilidade de despedida que acalma um pouco as feridas abertas.

Na mesma homilia, o padre Márcio Felipe comentou: "Só tem sentido a nossa vida se tiver conformada com a Cruz de Cristo". Sobre a Cruz escreveu o Papa emérito Bento XVI em "Introdução ao Cristianismo": "Mas a cruz não revela apenas quem é o ser humano, revela também como é Deus. (...) No abismo do fracasso humano revela-se o abismo ainda mais profundo do amor divino"(cf. pág. 213). O frei Guillaume Dehorter, OCD, do Convento de Avon - Paris, nas reflexões da Semana Santa, diz que "a cruz é o momento da revelação suprema na suprema miséria".

Jesus estava totalmente fragilizado: a angústia no Getsêmani, o tempo em que esteve detido, julgado, golpeado, flagelado... O rosto com bofetadas e cusparadas. E seu estado emocional após experimentar negação, traição, abandono, tortura? A perda de sangue...Sem força alguma... Como também escreve o frei Dehorter, a Paixão é a sua tentação máxima: convidado a fazer um milagre resplandecente quando da sua crucifixão.

E nós? Como aguentar as dores das perdas, dos ferimentos abertos? Ainda mais em uma época sem abraços e de confinamento. As ausências, os fracassos, as desgraças doem de verdade e dentro do peito onde é impraticável massagear. Creio que contemplar o Crucificado nos ajuda a saber com quem partilhar aquilo que nos fere. É possível colocar, em Sua Cruz, a nossa; o que sangra em nós no madeiro do Calvário, onde ele derramou até a última gota de Seu sangue. No caminho de nossa angústia, Ele segue conosco. Como escreveu Santa Ângela de Foligno, Ele não ama você de brincadeira; Ele não me ama de brincadeira...

Ainda na manhã do Domingo de Ramos, fui até a portaria do prédio em que reside uma moça - grande esposa e grande mãe -, por quem tenho carinho, para, a pedido dela, levar-lhe um ramo bento. É moça que vive, com o marido, experiência forte de dor, após a partida de um filho adulto no ano passado por problemas cardíacos. Deixou-me, como em outras vezes que passei por lá - colabora mensalmente com a cesta básica das integrantes da Magdala -, uma caixa de gorrinhos de tricô para recém-nascidos. Compreendo que ela unge seu coração machucado com proteção macia e quentinha para filhos de situação de pobreza. Experiência do Cirineu.

Como chegar até a Cruz do Senhor, no cimo do Calvário, para se conformar com ela e nela colocar as nossas fragilidades? Ao fazer-se como a moça dos gorrinhos de bebê: sair de si e estender as mãos para quem experimenta o frio da indiferença.

Ainda do Fr. Dehorter: "Não se trata de compreender, mas de se deixar conduzir pela graça de Deus que é sempre transformante".

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


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