Opinião

Ele está ali

Mas será que o coração está atento ao que tais palavras significam?


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
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A instituição da Eucaristia é o maior legado que Cristo deixou aos seus seguidores. O mistério da transubstanciação deveria levar os cristãos a uma permanente presença junto ao sacrário. Aqueles desprovidos de crença ou agnósticos devem achar estranho que não se faça companhia a Deus, já que Ele prometeu estar presente - corpo, sangue, alma e divindade - sob as espécies do pão e do vinho.

A fragilidade dos homens é manifesta. Prendem-se ao imediatismo das coisas triviais, levam a vida como se esta fosse eterna e não fosse chegar a hora derradeira. Aquela em que se enfrentará a morte. Inevitável e a mais democrática das ocorrências na efêmera aventura humana sobre este sofrido planeta.

Em tempos de peste, ainda se lembram de recorrer à Providência Divina. Sempre naquela contabilidade pueril: pedir, pedir, pedir. Quando tudo vai bem, a oração é negligenciada. Cuida-se de tudo, da rotina e da matéria e Deus parece não entrar na cogitação dos pretensiosos seres que se consideram primícias dentre as criaturas, a única espécie racional.

Quão frágil é a fé dos que proclamam ser crentes. Entretanto, a Eucaristia poderia ser o lenitivo para os que têm medo de viver. Muitos são os que têm medo de encarar o mistério que trazemos em nós. Só que a vida é generosa para aqueles que não a caluniam. Para aqueles que a aceitam como dádiva preciosa. Inteiramente gratuita. E ainda os que não têm dificuldade em reconhecer que o mundo não pode ter provindo de uma explosão, confessam ter mais confiança no design inteligente, ainda assim, têm dificuldade em estabelecer um diálogo com o Criador.

Sabe-se que um ser racional só está em equilíbrio quando consegue equacionar quatro distintos relacionamentos: consigo próprio, com o próximo, com a natureza e com a transcendência. Sem resolver questões que fazem balançar qualquer desses eixos, não se pode falar em higidez mental. A saúde é o princípio fundamental da existência. Preservá-la é preferível a curar a enfermidade. Um dever primordial do humano consiste em se manter sempre em estado de realizar tudo aquilo de que for capaz e de dar tudo o que puder dar, em todos os domínios.

A boca pronuncia palavras que as mães ensinaram e que são guardadas na memória. Mas será que o coração está atento ao que tais palavras significam?

Muitos de nós prosseguimos o nosso aprendizado e procuramos adquirir mais conhecimento, sem que haja um limite para a sua aquisição. Mas cuidamos também da estética da alma, que é uma ética impregnada de ensinamentos cristãos?

Lê-se na "Imitação de Cristo", atribuída a Thomas Kempis, cônego agostiniano, mas na verdade resultante de vários autores, "que todos os homens naturalmente desejam saber. Mas, que aproveita a ciência sem o temor de Deus? Por certo, melhor é o rústico humilde que o serve, que o soberbo filósofo que, deixando de conhecer-se, considera o curso dos astros".

Conhecer-se a si mesmo, o velho "exame de consciência", é a primeira lição que se deve aprender. O mais, é relativo: "os doutos gostam de ser tidos e aplaudidos como tais. Muitas coisas há, que o sabê-las pouco ou nada aproveita à alma".

São reflexões próprias a uma data que já foi chamada "Quinta Feira Santa", dedicada à celebração da instituição do Sacramento da Eucaristia. Ter presente que "a soberba derrubou o homem, a humildade só pode levantá-lo e restabelecê-lo em graça com Deus. Seu mérito não está no que ele sabe, senão no que ele faz. A ciência, sem as obras, não o justificará no tribunal supremo, antes agravará sua sentença".

Quem diz acreditar num Criador e nada faz para se aproximar Dele, é de uma incoerência atroz. Entretanto, almas singulares, como a de Therèse Martin, que hoje chamamos Santa Terezinha do Menino Jesus, demonstravam tão fervoroso amor pela sagrada Eucaristia, que sua alegria era servir como sacristã, para estar próxima à hóstia consagrada. Um dia, a partícula caiu ao chão, escapando às mãos do sacerdote. Ela apanhou-a de imediato, com ar de felicidade, porque estava a carregar o Menino Jesus.

Cobremo-nos uma postura compatível com a nossa proclamada fé. Como está a nossa intimidade com o Santíssimo, na Sagrada Eucaristia?

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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