Opinião

O interesse por cemitérios

Várias sapatilhas de balé desgastadas, flores e alguns bilhetes


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Wagner Nacarato
Crédito: divulgação

Quando surgiu meu interesse em conhecer cemitérios? Foi com Eliana Mascarenhas, professora de Artes. Ela um dia, chamou a mim e suas filhas, Fafá e Ana Alice, para um tour pelo cemitério do centro de Jundiaí. Nele, Eliana nos deu uma aula de História da Arte, um deslumbre.

Para quem não me conhece na intimidade, sou um apaixonado por Paris. Mas confesso que não foi amor à primeira vista, minha primeira visita à cidade foi um terror. Vários pesadelos à noite, todos eles me trazendo imagens de guerra. E a saída encontrada foi passear pelo entorno da cidade, voltado à noite ao hotel para ser, novamente, bombardeado. Foi tão traumático que prometi a mim mesmo que jamais voltaria ali.

Mas o mundo dá voltas, graças a D'us! O retorno se deu de forma romântica, diria eu. Era inverno. Logo ao chegar, com a noite caindo muito cedo e rapidamente, resolvi caminhar em direção ao Sena. De repente, cheguei numa pequena praça, com suas lojas iluminadas e, ainda, decoradas com enfeites do Natal. E a neve caiu como uma pluma. Foi inesquecível. Paris tinha me conquistado. Dali em diante, nada de pesadelos, apenas o retorno de um passado que foi aos poucos se manifestando em sua forma simbólica.

Há sete anos, numa destas visitas, me levantei com a ideia de conhecer o Cemitério do Père-Lachaise, um dos mais famosos do mundo, o maior de Paris, com origem no século XII. Nevava muito. Em vários momentos tive que me abrigar em alguns mausoléus para me proteger. Quando parava de nevar, saía para caminhar, num lugar pra lá de esquisito. Me perguntava o que estava fazendo ali, enquanto a vida estonteante de Paris estava lá fora. Às vezes, surgia por entre os túmulos, figuras saídas de filmes de terror. E a neve voltava a cair.

Já no final da tarde, antes do anoitecer, cheguei no local onde estão as cinzas daqueles que foram cremados. E a neve voltou a cair. E aproveitando a proteção do local, aguardando os minutos finais de minha visita, antes de o cemitério fechar, vi logo adiante algo que me chamou a atenção. Várias sapatilhas de balé desgastadas, flores e alguns bilhetes. Olhei na lápide e vi o nome de Isadora Duncan. Achei linda a demonstração dos bailarinos da Ópera de Paris, agradecendo a ela em seus bilhetinhos, pelo legado deixado. Sai dali mexido.

Ao sair do cemitério, uma bailarina da nossa cidade, me ligou. E ela estava me fazendo um convite para montar um espetáculo para sua companhia. Disse sim de prontidão, mas poderia ser sobre a vida de Isadora Duncan? Ela, na hora, aceitou. Confesso a vocês, que não conhecia nada da vida de Isadora, a não ser seu fim trágico.

Do cemitério me dirigi a um local mais quentinho e cheio de arte, o Centro Pompidou, local de exposições incríveis. E qual era a exposição daquele momento? A relação das Artes Plásticas com a Dança. E numa das salas, encontro, nada mais nada menos que Isadora. Eram filmes de sua época em Paris, início do século XX, mostrando a dançarina atuando. Pronto, era tudo o que o simbolista precisava.

A partir da leitura de "Minha Vida", obra autobiográfica de Isadora, entendi o porquê estava naquele dia escuro e trevoso noPère-Lachaise. Isadora veio me trazer vida. Vida à minha existência artística. Isadora apontou caminhos e me impulsionou a viver uma vida de um verdadeiro artista, com a letra A em maiúsculo, como ela dizia.

Há sete anos, montei um espetáculo com meus alunos do curso de Teatro da Escola Divina Providência, abordando, somente, a parte da infância de Isadora. Foi um grande retorno ao palco, após um período de luta contra o câncer. Isadora sempre me apontou caminhos de luz, embora muitas vezes o sol era impedido de brilhar. Tenho guardado na gaveta um novo texto teatral que, no momento certo, dividirei com vocês, numa montagem digna ao nome dela.

Recentemente, voltei a Paris. E numa noite fria, após o jantar, resolvi caminhar sem destino. Parei em frente duma pequena e modesta igreja, datada de séculos passados. Queria conhecê-la, mas naquela noite não seria possível, pois estava, prestes a começar, um concerto de um pianista. Não tive dúvidas. Comprei correndo o ingresso e me sentei, afastado do público que se aglomerava, pertinho do pianista. O concerto começou. E Liszt e Chopin chegaram também. E com eles, Isadora também chegou e sentou-se ao meu lado. Apoiou suas mãos sobre as minhas pernas e cochichou aos meus ouvidos: olá, Wagner! Que bom que você veio.

WAGNER NACARATO é é coordenador de cultura, professor e diretor de teatro


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