Opinião

Artistas trabalham em contraposição ao isolamento


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EDUARDO PEREIRA ARQUITETO
Crédito: divulgação

Em São Paulo, a artista capixaba Marina Perez Simão instalou seu atelier, faz o isolamento que a pandemia nos obrigou ali e trabalhou vigorosamente em suas telas imensas. Fez o que imaginou pela ausência do que poderia estar vivendo. Pintou paisagens brasileiras delirantes das praias e dos horizontes que não via. Cores intensas fortes, que vibram sem medo do exagero e tornam sua obra com evidente vínculo às obras da Tarsila, como a “ A Lua “, ou o “Grito”, de Eduard Munch, ambos conhecidos do grande público (veja o emoji de horror no seu Whattsapp), que acabou virando uma exposição em Nova Iorque em uma prestigiada galeria.
O que é instigante na atitude dela é que trabalhou ao contrário dos angustiantes dias que passamos isolados com uma resposta aos tempos que vivemos. Não está sozinha nessa saída , outros artistas não param e trabalham intensamente com a esperança de que possam mostrar o que fazem. Luzia Simons, artista brasileira com atelier há 30 anos em Berlim, produz suas flores imensas que ultrapassam o limite do decorativo e arrebatam as pessoas que param extasiadas em frente a seus trabalhos, que já rendeu exposições em Paris nos Archives Nationales, na Pinacoteca de São Paulo e agora com exposições marcadas nos Castelos Lieberose, em Brandemburgo, Pinitz, em Dresden, todos na Alemanha, no Museu Skovhuset, em Copenhague, Dinamarca, em Liubliana, Eslovênia. Outras exposições são articuladas para o Brasil , porém sem data e sem confirmação .
As injúrias da pandemia e a extinção do Ministério da Cultura não conseguiram frear a produção de arte no Brasil , as saídas sempre à margem do governo federal são simbólicas e terão importância na história da arte brasileira.
A maior galeria brasileira Nara Roesler teve durante a pandemia algumas ações: 20 episódios de conversas on-line entre artistas e curadores que debateram sobre a produção de arte contemporânea na pandemia e teve muitos seguidores. Também a exposição “Na espera “ , a representação da expectativa de um final da pandemia, tem artistas relevantes participantes com obras produzidas na pandemia: https://nararoesler.art/exhibitions/185/ . Rafaela Ferreira , diretora cultural da galeria , foi a organizadora e agora foram surpreendidos, na quinta-feira passada, por um incêndio de enormes proporções, que destruiu o maior acervo de arte contemporânea dos últimos 30 anos .
Outras manifestações, como as do artista argentino Marcelo Toledo, em processo com um novo material: máscaras e seringas descartadas da pandemia, que serão utilizadas para criar uma exposição que explora o doloroso impacto do vírus. Para que se registre esse período, que é a maior pandemia da história, faz isso por ter passado pela doença e sobrevivido. Vai deixar uma obra contundente que utiliza materiais hospitalares descartados , tubos , bolsas de soro, seringas...
Vera Luchini, também contaminada pela covid , durante a recuperação de cirurgia de remoção de um câncer, hospitalizada por meses e ainda em recuperação conta como foi esse sofrimento .
Já havia produzido durante a pandemia trabalhos identificados com as mulheres vítimas de violência doméstica , as dores que passavam pela discriminação de gênero, negras, feminicídio, representados literalmente em bonecas . Documentou em vídeo “As dores de ser mulher”, leia no portal JJ: https://www.jj.com.br/hype/2021/03/116644-bonecas-retratam-as-dores-femininas.html. Vera continua na pandemia a produzir , aguardando o momento para poder compartilhar esse trabalho, contundente, em exposição já planejada e projetada.
Artes e suas manifestações são nesse momento um importante registro do que estamos passando, não diria vivendo, a morte está presente e próxima como nunca se viu.
A resistência, apesar de tudo, das perdas, do luto, de mortes de artistas, essa tragédia, que contabilizamos todos os dias, os mortos e, ao mesmo tempo, o desmonte da cultura do ambiente e da ciência. Simultaneamente se apura a responsabilidade do governo nesse panorama cinzento de nosso tempo em que mortes poderiam ser poupadas.
Manifestações de resistência precisam acontecer na produção de arte e se espalhar, apesar das perdas de obras importantíssimas, apesar da ausência do Ministério da Cultura extinto e a ignorância sobre a produção cultural do governo. Não basta esperar por dias melhores, precisamos fazer esses dias melhores, a pandemia não pode adiar soluções para as artes, para os governos sem rumo.
EDUARDO CARLOS PEREIRA é arquiteto e urbanista


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