Opinião

O domingo da esperança

Se Cristo não ressuscitou, vã é a minha fé!


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

O domingo de Páscoa de 2021 reveste um significado especial. Pensa-se que a maior festa da Cristandade é o Natal. O nascimento de Jesus é, realmente, a celebração de um evento que mudou a História. Mas nada reveste maior importância do que a Ressurreição.

Pregação para inspirar melhores práticas de convivência, para fazer desaparecer o odiômetro que tomou conta do Brasil, existe em abundância. Nem é necessário ter fé para levar em conta orientações calcadas na sensatez, na racionalidade, na convicção de que o ser humano é, de fato, um animal racional.

Inúmeras filosofias ensinam o autocontrole, a contenção, o uso da prudência. Mas tais lições de vida não se comparam com a certeza gerada pela vitória contra a morte. Esta destruidora dos sonhos, que põe fim às existências e faz chorar os sobreviventes, parecia invencível. O filho do carpinteiro de Nazaré, que havia ressuscitado seu amigo Lázaro - por quem chorou ao saber da morte - prometera voltar. E ressuscitou!

São Paulo, que não conheceu Cristo, mas se converteu após à partida do Filho de Deus, resumiu bem o que significa a ressurreição: - Se Cristo não ressuscitou, vã é a minha fé!

Na Carta aos Coríntios, o apóstolo dos gentios recorda que Jesus ressuscitou, apareceu a Cefas, depois aos doze. Foi visto em seguida por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, "dos quais a maioria sobrevive até agora". Depois foi visto por Tiago e por todos os apóstolos. E prossegue: "Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, então Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e vã a vossa fé!"...Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens".

É verdade que somos frágeis e que nos apavoramos. Há razões para o pavor, o pânico e o doloroso temor, quando se assiste à partida de mais de trezentos mil brasileiros, as mortes a cada dia tornam as estatísticas inacreditáveis, não se pode cumprir a liturgia dos sepultamentos, a impotência de quem se trancou e, nem mesmo assim, tem segurança sobre sua incolumidade.

Fôssemos cristãos autênticos, assim como o foram os primeiros, aqueles que conviveram com Cristo, estaríamos mais tranquilos. Teríamos sido testemunhas oculares, presenciais, dos milagres narrados nos Evangelhos. Será? Nem Tomé acreditou quando os irmãos contaram a ele que Jesus havia estado entre eles.

Somos todos feitos de um miserável material. Frágil e ordinário, no sentido de vagabundo! Mas é da natureza da espécie humana. Santos não se livraram dessa miséria. Santa Teresinha do Menino Jesus, que morreu aos 24 anos no Carmelo de Lisieux, sofreu imensamente antes de partir. Nem ela foi poupada. Em 16 de agosto de 1897, confessou à Irmã Genoveva: "O demônio está me rodeando, não o vejo, mas sinto-o...atormenta-me, segura-me como se fosse com uma mão de ferro, para impedir-me de sentir o menor alívio; e aumenta meus males a fim de que me desespere...Assim, não consigo rezar! Posso somente olhar para a Santa Virgem e dizer: Jesus! ...Livrai-nos dos fantasmas da noite!".

Morreu em 30 de setembro de 1897, sofrendo terrivelmente, a exclamar: "Ó meu Deus!...tende piedade de mim!...Ó Maria, vinde em meu auxílio!...Meu Deus, como estou sofrendo!... O cálice está cheio...Cheio até à borda...nunca vou saber morrer!".

Mas nem tudo era terrível. Exclamou também: "Tudo o que escrevi sobre meus desejos de sofrimento, oh! Apesar de tudo é verdade!...E não me arrependo de me ter entregue ao Amor! Oh! Não!".

Logo em seguida, começaram os milagres e a "História de uma alma" tornou-se um best-seller. Ainda hoje há uma enorme devoção e carinho para com a santinha que escolheu passar o seu céu a fazer o bem sobre a Terra.

Precisamos muito dela neste 2021. Para nos trazer a esperança de que sairemos desta catástrofe, desta guerra de narrativas, deste obscurantismo, deste arsenal de ofensas, desfaçatez, agressões verbais e físicas. O bem sobre a Terra precisaria surgir primeiro nas consciências dos que poderiam tornar menos perigoso o futuro dos desvalidos, na coesão nacional para a vacinação de todos e no renascimento da esperança.

Feliz Páscoa da Ressurreição para todos os viventes!

JOSÉ RENATO NALINI
é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista
de Letras - 2021-2022


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