Opinião

Conversas com Graciliano Ramos

Para que arranjar mais encrenca, não é? Esta vida já é uma desgraça


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COLUNISTA PROFESSOR FERNANDO BANDINI
Crédito: divulgação

Um tipo reservado, pouco afeito a expansões e avesso a falar de si mesmo. Essas podem ser boas definições do escritor alagoano Graciliano Ramos, um dos maiores da literatura brasileira. Mas há outras, também, como a do sujeito que, quando próximo de amigos, torna-se expansivo e faz da aparente casca grossa um ingrediente a mais para se gostar dele. O livro "Conversas - Graciliano Ramos" mostra o lado público do escritor, apresentado em entrevistas, enquetes, depoimentos e causos registrados na imprensa, de 1910 a 1953. Organizado por Ieda Lebensztayn e Thiago Salla, o volume, lançado em 2014 pela editora Record, reúne praticamente tudo o que o autor de "Vidas secas" disse para jornalistas e colegas e foi publicado em jornais e revistas. Da primeira, em jornal alagoano, quando o autor ainda inédito não completara 18 anos, às últimas, no ano de sua morte, em 1953. Trabalho de fôlego, com muitas notas de rodapé que orientam o leitor ao contextualizar a citação. Essas notas, por sinal, são um dos bons motivos para se debruçar nas páginas do livro. Há referências da publicação em que está a entrevista, com breve histórico do periódico, além das informações acerca de todas as citações do escritor. Desfilam títulos como "Diretrizes", comandada por Samuel Wainer, "Revista do Globo", coordenada por Érico Veríssimo, ou o "Boletim de Ariel", da editora homônima, de Agripino Grieco. Publicações que contaram com editores e redatores do porte de Rubem Braga, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Otto Maria Carpeaux e Jorge Amado, e pelas quais discutia-se literatura.

Ufa! Haja pesquisa e diligência para tanta trabalheira. O resultado é um livro gostoso de se ler, que fotografa o autor e seu entorno.

Tirar declarações do velho Graça, como era conhecido, nunca foi tarefa fácil. Alguns, como Brito Broca, Francisco de Assis Barbosa e Joel Silveira - principalmente este último, que virou amigo do escritor - conseguiram mais. Silveira entrevistou-o uma dezena de vezes. Numa das primeiras, foi elogiado por colegas e leitores familiarizados com o texto de Graciliano. Disseram que o entrevistador conseguira "captar e reproduzir" o estilo do mestre. Mas não era só a reprodução do estilo - revela posteriormente o jornalista --, era o próprio escritor que, desconfiado do ainda novato entrevistador, manuscreve suas respostas.

Doutra feita, contrariado pelos sucessivos "mais adiante a gente conversa", Silveira foi costurando retalhos do que lhe dizia o escritor, nas vezes em que era procurado na Livraria José Olympio - parada obrigatória do romancista -- pelo insistente repórter.

Diante de uma pergunta a respeito do que andava lendo, o romancista respondeu que lia desordenadamente, sem horários nem sistemas, "desde os bons até fulano de tal". O repórter quis publicar o nome do "fulano", escritor de sucesso na década de 1940. Graciliano pediu que não o fizesse: "Para que arranjar mais encrenca, não é? Esta vida já é uma desgraça".

Há causos para todos os gostos. Desde aqueles inventados - como o do morcego que lhe teria pousado no ombro, em conversa de mesa de bar em Alagoas - a outros reproduzidos com variações ao longo do tempo. Graciliano dizia que parte do folclore a ele atribuído era invenção do dicionarista Aurélio Buarque de Holanda, amigo desde sempre e gozador nato.

Algumas das entrevistas mostram o romancista em fase de elaboração, como a que Brito Broca consegue pouco antes do lançamento de "Vidas secas". Ou a de Armando Pacheco, quando Graciliano publicara "Infância". Desse seu livro de memórias há diversas observações, apontamentos e explicações do autor, em mais de uma passagem. Assim também ocorre com "Memórias do cárcere", livro autobiográfico de publicação póstuma, acerca dos onze meses que passou preso pelo Estado Novo getulista, sem acusação formal nem processo, rodando de presídio em presídio, até chegar à Ilha Grande, no Rio de janeiro. Em mais de uma entrevista, o escritor refere-se ao livro em andamento e a seus personagens. "Conversas" é um bom incentivo para ler e reler Graciliano.

FERNANDO BANDINI é professor de Literatura do Ensino Médio


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