Opinião

Limites para as emoções

Emoções devem fluir, mas precisam de limites para fazê-lo


ALEXANDRE MARTINS
ALEXANDRE MARTIN ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Tenho utilizado esse espaço para discutir as ligações entre os hábitos de vida e o funcionamento do organismo, que pode ser entendido através do reconhecimento da realidade energética que une o plano mais sutil, da mente, com a parte mais física, mais densa, o corpo físico.

Mostrei que as emoções estão mais próximas do nosso corpo, dos nossos órgãos e vísceras, do que do nosso cérebro, que as interpreta quase que simultaneamente ao seu surgimento, criando os sentimentos. Mostrei que essas emoções são partes inerentes à vida e não devem ser inibidas ou renegadas, pois, como o nome diz, geram movimento, que é parte essencial de estar vivo.

Porém, como em todo aspecto que venhamos a estudar, existe o contraponto complementar que com oposição produz o equilíbrio, tal como a relação das polaridades yin e yang contidas no símbolo do Tao.

Emoções devem fluir, mas precisam de limites para fazê-lo, pois do contrário, tal como em uma represa onde abrem-se suas comportas de forma abrupta e demasiada, teremos que lidar com a força destrutiva de uma inundação.

Assim como podemos desenvolver uma capacidade corporal, tal qual força ou resistência física, através do uso consciente e controlado de exercícios para essa capacidade em um o ambiente de uma academia, por exemplo, é possível desenvolver a nossa inteligência emocional, exercendo uma atuação consciente sobre as emoções.

O objetivo aí não é a inibição das emoções, pois essa é a reação mais primitiva, presente na maioria das pessoas e que acaba acarretando problemas de estagnação de energia (uma complicação frequente na medicina chinesa), onde o organismo não consegue desenvolver o movimento que a emoção proporciona e acaba por modificar a fisiologia normal para acomodar essa falha.

A mente consciente pode e deve modular o fluxo de energia, dando vazão ao seu movimento, porém tornando-o mais funcional, para que a energia emocional flua sem causar prejuízo a quem a sente e nem a aqueles que estão próximos à sua manifestação (presenciando e sofrendo com os impulsos, ataques de raiva, medo e outros).

Sabemos pela teoria psicanalítica de Freud que o indivíduo que atende de forma irrestrita todos os seus desejos e emoções está mais próximo da loucura do que da felicidade. Por isso é muito importante o desenvolvimento da inteligência emocional, do contrário podemos sobrecarregar a rede energética do nosso corpo etérico (representada pelos meridianos e centros energéticos conhecidos como pontos de acupuntura, ou mesmo chakras) e causar problemas de saúde.

Em seu livro intitulado "12 regras para a vida: um antídoto para o caos", o psicólogo canadense Jordan B. Peterson, dentre muitas discussões valiosas, sugere em uma das suas regras (não vou dizer qual - a leitura vale o esforço!) que mesmo diante de um quadro de sofrimento atroz, que desperta todo tipo de emoção que nos move em direção ao desespero e à desesperança, devemos impor um limite aos sentimentos criados.

A ação é muito semelhante a colocar uma barragem impedindo uma enchente atingir a totalidade do território, comprometendo o todo. Nesta linha de ação, sugere que coloquemos inclusive períodos de tempo em que podemos ressoar e sentir essas emoções, mas não o façamos o tempo todo, pois do contrário elas comprometem o nosso sono, nosso trabalho e impedem de termos momentos felizes, que é perfeitamente possível, mesmo em meio a um mar de sofrimento.

A vida oferece pontos de felicidade a todo o momento, presentes nas coisas mais simples, como uma conversa, concluir uma tarefa simples, um pequeno passeio ou até mesmo, afagar um cão ou um gato na rua em uma demonstração de carinho sem esperar muito em troca.

Com essa escolha e exercício nos sentimos donos dos nossos sentimentos (nossa versão cerebral das emoções) e criadores da nossa realidade, que é mais complexa do que só uma emoção inundando tudo, seja positiva ou negativamente.

Eu os deixo com essa reflexão, útil em tempos duros de pandemia, mas onde podemos também criar espaços para a vida florescer.

Fiquem todos bem!

ALEXANDRE MARTIN é médico formado pela Unicamp e especialista em Acupuntura e Osteopatia


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