Opinião

Sobre os heróis da saúde

As pessoas morrem e não são reanimadas no próximo episódio


ALEXANDRE MARTINS
ANA FOSSEN_ARTICULISTA
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

Inicio minhas reflexões de hoje afirmando que o Brasil constrói os piores mitos ou as mais fracas narrativas sobre heróis e super-heróis já vistos na modernidade. Mitos tentam dar contorno simbólico ao que a mente humana não pode acessar.

Seu objetivo principal é transmitir conhecimento e dar conta de tudo aquilo que se considerava importante numa determinada cultura. Um detalhe importante sobre a mitologia é que nem tudo acaba bem no final de cada narrativa. Cidades são destruídas, heróis incríveis acabam mortos, deuses são depostos e os mortais costumam se dar muito mal.

Os heróis míticos eram escolhidos pelos deuses, por seu parentesco divino ou por suas características morais e éticas, que visavam a manutenção da ordem estabelecida pelas divindades e pela pólis. Eram jogados pelo destino em grandes tragédias e destrutivas guerras.

As culturas atuais, ao contrário da Antiguidade, criam contos de fadas ou aventuras de super-heróis, que não são a mesma coisa que mitos.

Contos de fadas são histórias criadas para ludibriar a realidade, para fazê-la ser mais palatável, ou mesmo, para criar uma esperança falaciosa de futuro. O cinema e os HQs americanos - que fincaram suas raíze sno pós-guerra- são matrizes importantes desta forma de dar conta do real.

Neles vemos humanos, mortais, que se transformam por uma sorte de tecnologia científica em super-heróis. Há raios gama, armaduras, picadas de aranha e X-células geneticamente modificadas que fazem destes homens e mulheres seres corajosos e sem limites, nem sempre muito éticos, às vezes monstruosos.

A Marvel e a DC nos lembram que temos super-heróis kamikazes, que não são imortais, mas que ressurgem do nada no capítulo seguinte de uma trama de guerras, onde nós, humanos comuns, somos destruídos, mas não morremos, onde a Terra é incendiada, mas a vida se refaz num certo passe de mágica.

Recentemente, elegemos como nossos mais novos super-heróis os profissionais da saúde, principalmente, os que estão na primeira linha de enfrentamento da pandemia. E consequentemente, guiados pela fantasia tosca das aventuras da telona, decidimos que eles deveriam salvar o Brasil do vírus, a qualquer custo.

O tal custo se resume tragicamente a muitas mortes nessas equipes de saúde, a muitos dias de internação, a noites infinitas em hotéis para evitar a infecção de familiares, a choro, angústia, medo, desespero e impotência. Sentimentos que são significados pela população como uma obrigação, afinal, eles são super-heróis.

Obrigados a trabalhar para nós como se tivessem contraído uma dívida para com o social. Devem trabalhar para uma população que inclusive mal pensa no bem-estar deles, na medida em que, faz pouquíssimo isolamento para evitar o aumento de casos, utilizando a regra simples do "sofrimento que não se vê, não existe".

A diferença entre o Wolverine ou o Hulk é que essas pessoas morrem e não são reanimadas no próximo episódio. Vão trabalhar no front, todos os dias, porque precisam dos empregos que sustentam suas vidas.

Eles adoecem de depressão, de pânico e exaustão. São super-heróis que pagam contas e que pensam diariamente em desistir, porque temem nunca mais poder olhar o rosto de seus familiares. Muitos deles viram alguns de seus parentes e amigos irem embora no seu campo de batalha, dilacerados, atônitos.

Eles não são salvadores da pátria -aliás, o mito mais destrutivo que a cultura brasileira soube criar - eles são trabalhadores comuns que se viram metidos numa pandemia, que já dura mais de um ano.

Os milhares de membros das equipes de saúde brasileiras são heróis da Antiguidade, dos mitos gregos, escolhidos e esquecidos pelos deuses, arremessados pelo destino nesta batalha.

Esses profissionais não são super-heróis dos quadrinhos, são heróis míticos, hercúleos, portanto, eles adoecem e morrem. Ainda que não seja visível, esse sofrimento existe e vai nos passar a fatura.

Se for possível, fiquem em casa.

ANA CLÁUDIA FOSSEN é é psicóloga e psicanalista, graduada em Psicologia pela USP e pós-graduada em Psicologia e Filosofia pela Universidade Complutense de Madri-Espanha


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