Opinião

Quantos somos, na verdade?

A ciência comprova que há eventos que não chegaram à nossa consciência


divulgação
HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Somos singulares, irrepetíveis, heterogêneos. Mas somos um indivíduo apenas? Ou somos nós e nossas circunstâncias, como queria Ortega y Gasset? Mário de Andrade escreveu: "Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta". Ao expulsar demônio do corpo de alguém endemoniado, Cristo perguntou seu nome. Recebeu como resposta: "Meu nome é legião, porque somos muitos!". A passagem do Evangelho de Lucas serviu para o romancista português Antonio Lobo Antunes escrever um livro, justamente chamado "Meu nome é legião".

Ou seja: qualquer pessoa não é apenas ela. Quantos somos? Nosso "eu" é idêntico na família, no trabalho, no convívio, na política ou na religião? Temos certeza de nossa coerência? Ou é mais interessante sermos humildes e sabermos que, seguramente, somos muitos?

Basta pensar o quão complexa é nossa mente. Há sensações que nos recordam algo de que não tínhamos conhecimento. Não conseguimos registrar conscientemente o labirinto de nossa mente. A ciência comprova que há eventos que foram absorvidos pelos nossos sentidos, mas não chegaram à nossa consciência. E o que dizer da intuição? Aqueles pressentimentos, aquelas pré-compreensões que nem nós sabemos explicar?

No devaneio, essas ideias podem surgir, repentinamente, mas também se desvanecer de repente. O nosso inconsciente produz uma vida talvez muito mais dinâmica e interessante do que a vida consciente. Os sonhos fornecem múltiplas imagens simbólicas. Tudo tem explicação, embora não saibamos desvendar o que essas mensagens nos transmitem, nem o motivo pelo qual elas surgem, às vezes reiteradamente, durante o nosso sono.

Todos sonham e são poucos os que, raramente, conseguem se lembrar do que sonharam. A regra é o esquecimento imediato do sonho, assim que acordamos. Os psicólogos supõem a existência de uma psique inconsciente, enquanto outros repudiam tal formulação. Para estes, seria admitir dupla personalidade no interior do mesmo indivíduo.

Sem estudar psicologia, mas com experiência no trato dos humanos, todos podemos, empiricamente, concluir que é mais comum do que parece, cumular-se em uma só pessoa mais de uma ou várias individualidades.

Não é necessário diagnosticar o fenômeno como patologia. A literatura explora tal realidade em livros como "O médico e o monstro", escrito em 1886 por Robert Louis Stevenson, o escocês que celebrizou essa metamorfose. A mente humana é um território a ser desvendado. Assim como não conhecemos ainda todos os mistérios que restam por serem descobertos, também ignoramos as potencialidades de nossa consciência. E é óbvio que existe inconsciência. Assim como existe uma consciência coletiva, é natural exista também uma inconsciência coletiva.

O avanço da ciência e de sua serva, a tecnologia, fará com que dentro em breve possamos nos servir, de maneira natural, das faculdades mentais hoje ainda adormecidas. Fala-se, por exemplo, em uso rotineiro da telepatia e da possibilidade que o ser humano terá de ler os pensamentos alheios.

Imagino o que isso vai significar. Quanto fingimento e hipocrisia impregna os relacionamentos de hoje. Quantas pessoas, que consideramos amigas, têm de nós um conceito que nos machucaria! Quantos os que se aproximam da figura pública, do agente de autoridade, de quem detém - ainda que minúscula - uma parcela de poder. Mas não nutrem qualquer consideração pelo ser humano que está sob essa externalidade.

Talvez o mundo tenha de se conduzir pela mais estrita franqueza e honestidade. Com certeza, perderá o encanto. É que o ser humano gosta de ser iludido, saboreia ser enganado. Não quer enxergar a verdade. Esse encontro com a verdade pode ser muito doloroso.

Não adianta cultivarmos o misoneísmo, ou o medo e o ódio irracional pelo novo e pelas coisas desconhecidas. Queiramos ou não, o mundo está sob profunda mutação estrutural e nos cumpre adaptarmo-nos às transformações ou perecermos. É óbvio que pereceremos, mais dia, menos dia. Mas enquanto a indesejável das gentes não vier nos buscar, é interessante saber que, queiramos ou não, somos muitos. Que não sejamos a legião evangélica. Mas seres aparentemente normais, que também mudam, a mostrar que Heráclito estava pleno de razão: ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio.

JOSÉ RENATO NALINI
é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


Notícias relevantes: