Opinião

Cancelem o homem, não sua arte

Cancelar a arte de Woody Allen parece- me uma bobagem


ALEXANDRE MARTINS
ARTICULISTA RAFAEL AMARAL'''''
Crédito: ALEXANDRE MARTINS

A essa altura, é provável que você odeie Woody Allen. Como não odiar alguém acusado de abusar da própria filha, então uma criança? Também é provável que, perante às acusações feitas a Allen, como a de ter casado com a própria filha (o que é mentira), você não queira mais assistir aos filmes que Allen escreveu e dirigiu.

Entendo. Também odeio pedófilos. E talvez não devesse, nesta coluna, tratar de questões que envolvem um suposto abuso infantil. No caso Woody Allen/Mia Farrow, o que se colhe, até o momento, é uma guerra de narrativas. Teria esse cineasta genial abusado da própria filha? Ao que tudo indica, segundo uma investigação feita à época, nos anos 1990, não. Dá para afirmar isso com todas as certezas, acusando Farrow de ter manipulado a menina? Também não.

Ficam algumas dúvidas. Com "Woody Allen - A Autobiografia", leitura obrigatória para nossos tempos de "caça às bruxas" e cancelamento fácil, tendemos a acreditar em Allen. Seu relato é sincero, obviamente parcial, com detalhes sobre o relacionamento com a filha adotiva de Farrow, Soon-Yi Previn, e os dias em que sua vida virou um inferno com a acusação de abuso à pequena Dylan Farrow. E, claro, boas doses de sagacidade e cinema.

Cancelar a arte de Woody Allen parece-me uma bobagem. Cancelar o homem, caso não se possa conceder a ele o benefício da dúvida, é justo. E, independente da existência ou não de um crime, teremos de viver com uma certeza: sua obra ficará para sempre.

Tenho a maior parte dela na minha estante, em DVDs e Blu-rays. Recorro com frequência às suas imagens e frases. Seus roteiros têm assinatura. Sua direção pode parecer fria, "fácil", e é sempre elegante. Por um longo tempo, encerrado desde que as acusações de abuso voltaram a pipocar na imprensa, ele dirigia sem parar, um ou até dois filmes por ano.

Como vivemos tempos estranhos, nem mais pelo novo Woody Allen podemos aguardar. Os hiatos ficaram maiores. O homem que nos entregou obras-primas como "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" e "Crimes e Pecados" é um idoso preso a seu apartamento em Nova York, esperando, como tantos, o fim dessa interminável pandemia. Outra, a dos cancelamentos, talvez demore mais para passar; Allen parece forte o suficiente para ignorá-la e, tendo cruzado a linha dos 80, ainda quer trabalhar - para nossa sorte.

Quando jovem, no fim dos anos 1960, ele percebeu que precisaria dirigir suas obras para obter total controle criativo. Mais: precisaria de um produtor consciente e um bom contrato para lhe garantir o corte final. Conseguiu tudo isso se mantendo fiel à sua forma, mesmo ao migrar de gênero, fazendo filmes muito diferentes em uma mesma década, como o engraçadíssimo "Bananas" em 1971 e o bergmaniano "Interiores" em 1978.

Nem um nem outro, nem a comédia escrachada nem o drama profundo: o melhor de Allen está no meio, na comédia adulta sobre gente no divã, sobre miseráveis amáveis e amantes de ocasião, sobre trocas de casais e toda a confusão à qual vida se resume - com pitadas de Dostoiévski e Groucho Marx, golpes de niilismo e rostos famosos.

Em todos os filmes nos quais atua - incluindo alguns que não dirigiu, como o ótimo "Testa-de-Ferro por Acaso" (justamente sobre a imbecilidade do macartismo) -, Allen é ele mesmo. O mesmo homem, a mesma personagem, o baixinho nova-iorquino hipocondríaco (em "Hannah e Suas Irmãs") e o artista em crise (em "Memórias", seu "Oito e Meio").

Da fase Mia Farrow há algumas pérolas como "Zelig", "Broadway Danny Rose", "A Era do Rádio", "Maridos e Esposas" e, claro, "A Rosa Púrpura do Cairo". No último, a atriz interpreta Cecília, cuja única fuga, nos tempos da Grande Depressão, é o cinema de rua e seus clássicos. Certo dia, depois de ver o mesmo filme inúmeras vezes, Cecília começa a interagir com o herói da tela, que sai do plano da ficção e se torna seu amante.

Autocrítico como é, Allen provavelmente não revê seus filmes. Menos ainda, podemos supor, aqueles que fez com a ex-mulher. Cancelar sua obra implica jogar fora alguns momentos valiosos da sétima arte. Caso fique comprovado o crime, espero que ele pague como prevê a lei. Ainda assim, seus trabalhos seguirão vivos - inclusive os que fez com Mia Farrow.

RAFAEL AMARAL é crítico de cinema e jornalista. Escreve em palavrasdecinema.com


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