Opinião

Escrever para não esquecer

As recordações formam uma espécie de história polifônica


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

À medida em que o tempo passa e se aproxima o termo final, acentua-se a vontade de registrar tudo aquilo que acorre à lembrança e que um dia acabará. Com certeza essa fase de confinamento, mais de um ano contido e impedido de um convívio considerado natural e, repentinamente interrompido, faz com que a memória se ative. Haverá oportunidade para dizer o quão importante foi conhecer pessoas às quais já não se poderá relatar essa experiência? Pois elas já se foram. Residem nas reminiscências da mente que também se esmaece, se esquece e se vai.

Por que acodem agora episódios tão longínquos? Vejo-me em salas de aula do Educandário Nossa Senhora do Desterro, tentando desenhar letras em cadernos de caligrafia, sob orientação de D. Branca Paulielo Conde. Ali também estava Lia Avallone, tão jovem e tão linda?

Irmã Josina, Irmã Carmem, são as vicentinas que habitam esse espaço. Depois, a participação esporádica, na condição de "avulso", das crianças que iam ao Parque Infantil "Prefeito Manoel Aníbal Marcondes", no Largo de Santa Cruz. Grandes livrões coloridos e mestras também moças e bonitas: Maria da Glória Pontes de Toledo, Vera Brena Brayner, Diva Vicente, sob a autoridade da diretora Judith Martins Arruda.

As aulas de catecismo no São Bento, com dona Zéca, dona Lica e dona Escolástica. Em seguida, a Escola Paroquial Francisco Telles, onde passei anos tão felizes, com as Irmãs Otávia e Suzana, Úrsula, Verona e Zélia? Irmã São Luís e Irmã Flórida eram da categoria de comando. As visitas dos prelados belgas, para os quais decorávamos discursos em francês, os programas na Rádio Difusora, com Orlando de Jesus Moreira tocando piano, Ernestinho Chiorlin falando de esportes e nós veiculando notícias da ingênua vida escolar?

Essas recordações formam uma espécie de história polifônica, pois revivem o passado sob múltiplas perspectivas. A participação na vida religiosa, herança familiar preservada por décadas, a abertura da visão para o mundo novo, propiciado pela leitura, a presença de vultos singulares, cada qual com sua característica, a evidenciar o exuberante mosaico das personalidades.

Há uma alternância entre o plano geral - o que era Jundiaí na década de cinquenta do século passado - e os close-ups de pessoas que já se foram - outras que ainda estão aí - mas todas elas morando na minha consciência.

Faz falta a nós todos esse perspectivismo que é recuperar os perfis da micro-história, pois a vida é feita do acúmulo de minúscula atuação, contínua e perseverante, de uma pluralidade de pessoas.

Tantas vezes tentei, depois de já adulto, colher a memória oral de idosos, para que essa fortuna em experiências não se perdesse quando eles nos deixassem. O perspectivismo é uma fonte imperecível de conhecimento, ainda negligenciada, porque se perde a polifonia, metáfora auditiva para exprimir o que seria um conjunto de narrativas a reconstituir épocas que já não voltam.

A polifonia, para Peter Burke, cujo livro "O Polímata" (Editora Unesp) é muito instigante, é "uma forma que confere expressão a diferentes vozes do passado (a chamada história oral tem não apenas incentivado esta prática, mas trazido à tona a consciência de que esta é uma abordagem possível)".

Ouvir diferentes personagens recupera a ideia de transdisciplinaridade, tão presente no discurso, tão ausente na prática educacional. Nossa escola é multidisciplinar. Mas os alunos têm disciplinas distintas, ministradas por professores distintos. Perde-se o sentido de conexão. Enquanto isso, tentar estabelecer uma conectividade entre assuntos diversos amplia os horizontes e permite a quem quer que seja vislumbrar um panorama de amplitude dilatada.

É o verdadeiro aprendizado da vida. Saciar-se com relatos multifários, tomar conhecimento com a diversidade, maravilhar-se com a sinfonia - às vezes desafinada - dos sons produzidos pelos semelhantes.

Todos temos um baú de memórias riquíssimo. É conveniente escarafunchar nele e resgatar aquilo que gostaríamos de partilhar. Escrever, ainda que seja só para nós mesmos. Escrever enquanto se tem lembrança, enquanto se pode recorrer a ela. Depois, é o esquecimento, o nada, o mistério.

JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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