Opinião

Eles semearam ... e nós colhemos

Quem não olha para o retrovisor tende a se apequenar


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HOMENAGEM DOUTOR JOSE RENATO NALINI NO FORUM
Crédito: divulgação

Assim ocorre com a sucessão de gerações. Newton já afirmara que conseguiu enxergar mais longe porque se apoiara sobre ombros de gigantes. A metáfora é interessante para enfatizar o quão grande é a dívida que temos com os nossos ancestrais.

Uma civilização baseada num atroz individualismo, que só pensa no próprio interesse, imersa no consumismo e nas futilidades, nem sempre tem condições de cultuar o passado. A vida flui como se fora um eterno presente, uma sucessão de conquistas e de êxitos que só confirmam a perspicácia de quem os alcançou.

Mas, na verdade, para que aqui se chegasse, foi preciso que muitos se sacrificassem. Quem propiciou as condições para que você chegasse ao ponto onde se encontra?

Uma educação de qualidade não descuidaria de recordar aos educandos que eles são caudatários de inúmeros seres humanos, cuja passagem pelo planeta pode ter sido até anônima, porém são peças fundamentais na engrenagem que hoje parece natural e merecida por quem dela usufrui.

Veja-se um município como Jundiaí. Teve centenas de milhares de existências hoje esquecidas. Até mesmo aquelas que exerceram papel ou função de realce estão olvidadas. Um brevíssimo retrospecto por uma partícula da História desta terra mostrará o quão desmemoriados somos.

Setores estatais, sustentados pelo povo e destinados a cultivar a cultura não poderiam menosprezar a História. Ou reinventar a roda a cada administração, como se tudo tivesse começado nesta gestão.

Quem nasceu em Jundiaí e conheceu a cidade antes da transformação que a tornou uma urbe cosmopolita, se recorda de pessoas que hoje podem até emprestar seus nomes dignos para logradouros públicos. Mas que ainda não mereceram a lembrança permanente de celebrações de sua passagem por estas plagas.

Falo, por exemplo, de Nicolino de Lucca. De José Romeiro Pereira. De Dom Abade Pedro Roeser, Monsenhor Doutor Arthur Ricci, Professor Nassib Cury, Elza Facca Martins Bonilha, Anna Maria Figueiredo, Carlos Franchi, Jacyro Martinasso, João Fernandes Gimenes Molina, José Sarpi, Álvaro Marcondes, Antonio Paulielo Filho, Salvador Messina Neto, Luis Latorre, Lavoisier de França Silveira, Rubens Cascaldi, Generoso Mário Bocchino, Jandira Miranda Duarte, Lázaro Miranda Duarte, José Flávio Martins Bonilha, Romeu Marchi, Oswaldo e Leta Bárbaro, Eloisa Lotierzo, Cláudia Maria de Lucca Parise, Helena Galimberti. Há tanta gente mais, tão esquecida quanto José Feliciano de Oliveira, o moço pobre que obteve erudição lendo livros deixados num almoxarifado da Prefeitura. Idealizador de um Gabinete de Leitura, que depois veio a existir e a funcionar até hoje, sob o patronato de Ruy Barbosa, o Águia de Haia.

José Feliciano ensinou durante décadas na Sorbonne, vivendo em Paris onde conviveu com luminares e de onde voltou para morrer. Defendeu José Bonifácio, que passou a ser hostilizado por alguns pensadores, ávidos por diminuir sua importância como o Patriarca da Independência.

José Feliciano de Oliveira faleceu em 1962 e eu fui ao seu sepultamento. Recentemente procurei por seu túmulo no Cemitério Nossa Senhora do Desterro e não o localizei. Há figuras que merecem biografia oficial e celebração cívica sob patrocínio da Prefeitura, que deve ser também a mantenedora do acervo histórico de uma cidade que não surgiu no século XXI, mas da qual se tem notícias desde o século XVI.

Dentre essas figuras, quem foi Benoit Certain? Qual a importância dos Barões de Jundiaí? E do Conde do Parnaíba? E de Antenor Soares Gandra? Quais foram os primeiros imigrantes italianos que aqui chegaram e transformaram nossa economia?

Quem não olha para o retrovisor tende a se apequenar e a não se valer das experiências passadas, exatamente aquelas que ajudam a não errar ou, pelo menos, a errar com intensidade menor.

Jundiaí ainda tem pessoas centenárias. Elas são bibliotecas vivas. Precisariam dar seus depoimentos, pois a memória oral é aquela capaz e suficiente a recuperar a verdadeira História de um espaço de terra, lugar do sonho e do sofrimento de inúmeros e ignorados antepassados nossos.

JOSÉ RENATO NALINI

é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras - 2021-2022


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