Opinião

Contradições e convergência

A vida adulta é pilotada por restos e rastros da infância


DIVULGAÇÃO
MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE (NOVA)
Crédito: DIVULGAÇÃO

O psicanalista e escritor Contardo Calligaris (1948-2021), recentemente falecido, escreveu: 'Numa psicanálise, descobre-se que a vida adulta é sempre menos adulta do que parece: ela é pilotada por restos e rastros da infância".

Tão verdadeiro!

Recordei-me da moça na sua primeira gestação. Adolescente ainda. O corpo mexido, por uma pessoa da família, desde os sete anos, quando ela, na zona rural, nem entendia o que estava acontecendo. Os pais, que captaram de imediato o que se dera, preferiram não ouvir os detalhes. Para eles, tinham uma filha "desandada" que provocara o moço. Desviaram o olhar dela. Cresceu aos trancos e barrancos. Em trabalho de faxina doméstica aos 12, procurou se encontrar pelas ruas da cidade, para ela desconhecidas. Sem qualquer discernimento ou condições de dizer não, após o "sim" forçado para provocar prazer em terceiros, considerou interessante como eram apreciadas as mulheres de brincos reluzentes encostadas nos postes e nas esquinas. Para ela não havia admiração desde que a usaram para provocar sensações. Chegava a acreditar que fosse assim mesmo: um direito dos machos revolver-lhe as entranhas. Conclusão: entrada "triunfal" para o comércio do sexo. Aplausos nos palcos das boates e convites sussurrados ao ouvido no viço da juventude. Da cidade grande para o litoral. Do litoral para as periferias existenciais, termo tão usado pelo Papa Francisco.

O abuso sexual é devastador, rompe o corpo, a intimidade, a dignidade...Impõe culpas e submissão. Transforma o outro em coisa. É raro encontrar quem se disponha a ouvir e acreditar.

Ao crescer a barriga, lhe disseram que por certo havia bebê. Comprovado, imaginou que os pais se interessariam por ela a partir da neta. Ignoraram. O jeito foi entregar para adoção. Não queria para a menina a sua história, sem abraço, sem colo, cuidando sozinha de seus ferimentos que não cicatrizavam. Doeu-lhe na alma a separação da pequenina, que abraçara forte no hospital.

Seu coração secou para sonhos e o útero para novas vidas. Muitos anos se passaram e a filha a localizou pelas redes sociais. Quis experimentar um afago materno, colocar vida nova nos laços que não se romperam e esquecer sua história após a adoção.

A mãe a recebeu de braços abertos. Colocou um colchão para si no piso de cimento da casa de três cômodos e arrumou a cama para a filha. Junto ao travesseiro uma boneca. O corpo mexido/remexido não lhe tirou a pureza.

Veio-me o poema "Pequena Crônica Policial" de Mário Quintana sobre a mulher do rosto com marcas de idade, das canseiras, da bebida, esfaqueada por um marinheiro, quando, no necrotério, lhe abriram o corpo: "Que linda e alegre menina/ Entrou correndo no Céu!? /Lá continuou como era/ Antes que o mundo lhe desse/ A sua maldita sina:/ Sem nada saber da vida, / De vícios ou de perigos, / Sem nada saber de nada.../ Com sua trança comprida/ Os seus sonhos de menina".

Soube, depois que, ao morrer a mãe adotiva, o pai quis devolvê-la à Justiça. Não aceitaram e ela prosseguiu, até a maioridade, em uma relação áspera. A mãe biológica estava ali, agora, desfeita de encantos, mas pronta a lhe assoprar as dores.

Recordei-me do Poema "Testamento" de Alda Lara (1930-1962), poetisa e médica portuguesa de origem angolana: À prostituta mais nova/ Do bairro mais velho e escuro, / Deixo os meus brincos, lavrados/ Em cristal, límpido e puro. / E àquela virgem esquecida/ Rapariga sem ternura, / Sonhando algures uma lenda/ Deixo o meu vestido branco, / O meu vestido de noiva, / Todo tecido de renda.../ Este meu rosário antigo/ Ofereço-o àquele amigo/ Que não acredita em Deus.../ E os livros, rosários meus/ Das contas de outro sofrer, / São para os homens humildes, / Que nunca souberam ler..." Os poemas, que são de esperança, ela deixa ao seu amor para que ele, quando a alma dela vier beijar de longe os seus olhos, vá pela noite fora, "com passos feitos de luta, oferecê-los às crianças" que encontrar nas ruas.

Restos e rastros da infância da moça e da sua filha colocados na boneca em cima da cama.

MARIA CRISTINA CASTILHO DE ANDRADE é professora e cronista


Notícias relevantes: